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Real e imaginário

Por Vinícius Félix


O mineiro Silviano Santiago, convidado da Flip 2014, é escritor e crítico literário. Ganhou no ano passado o prêmio Machado de Assis pelo conjunto de sua obra, concedido pela Academia Brasileira de Letras e considerado um dos mais importantes do país, tendo agraciado nomes como Ferreira Gullar, Guimarães Rosa e Cecília Meireles. "[O prêmio] me levou primeiro a buscar o espelho retrovisor do carro da vida. Nem tudo foi em vão. E a frase não é retórica, pois traduz as dificuldades que enfrenta o escritor nacional para se afirmar no panorama literário", conta o autor.


Em sua terceira participação na Flip, Silviano lança o livro Mil rosas roubadas (Companhia das Letras), no qual aborda sua longa e rica amizade com Ezequiel Neves, produtor musical e jornalista. A história real virou um "roman à clef", em que realidade e fantasia se misturam. "Não sei se é importante – diante de uma obra de arte, no caso, um romance – que se deslinde o que é real e o que é imaginação."


Silviano participa da mesa “Por que era ele, por que era eu” ao lado de um velho conhecido, o francês Mathieu Lindon, autor do livro O que amar quer dizer (Cosac Naify).


Qual a sua expectativa para a participação na Flip deste ano?

É o terceiro convite que recebo dos organizadores. Estive primeiro em diálogo com o argentino César Aira e, posteriormente, abri a sessão de homenagem a Carlos Drummond de Andrade. Conheci Mathieu Lindon nos anos 1980, quando esteve no Brasil e queria conhecer o romancista Autran Dourado. Telefonou-me. Agendei o encontro. Autran nos convidou para jantar na casa dele. Um belo diálogo entre a velha geração brasileira e a nova geração francesa. Recentemente, quando mantinha coluna no suplemento “Sabático”, escrevi sobre o último romance de Mathieu. Senti uma grande afinidade. Quem se interessar pela minha resenha a encontrará pela internet, no arquivo do jornal O Estado de São Paulo.


Como crítico literário, que avaliação faz da homenagem da Flip a Millôr Fernandes?

Millôr é o nosso extraordinário “escritor sem estilo”, como ele se autoclassifica. O espírito irreverente, cáustico e irônico encontrou no desenho de linhas limpas e severas o companheiro ideal para as farpas bem-humoradas a que nada escapa, e ainda para as fábulas e as parábolas que não cheiram ao mofo das verdades pequeno-burguesas ou das malandragens da política com p minúsculo. É um homem de opinião. 


Como foi receber o prêmio Machado de Assis?

Um prêmio como o Machado de Assis, dado pelo conjunto de obra, me levou primeiro a buscar o espelho retrovisor do carro da vida. Nem tudo foi em vão. E a frase não é retórica, pois traduz as dificuldades que enfrenta o escritor nacional para se afirmar no panorama literário. Reavaliado o próprio projeto de vida e arte, olho para a estrada à frente. Não a enxergo menos tranquila nem menos entulhada de colegas. Falta sinalização cidadã e o asfalto é semelhante ao de toda rodovia no Brasil. Buracos apontam para os acidentes de percurso. De novo parto do zero, como, aliás, sempre parti quando me decidia a enfrentar uma vez mais a folha de papel em branco.


Mil Rosas Roubadas (Companhia das Letras) leva o aviso: "Os personagens e as situações desta obra são reais apenas no universo da ficção". Porém, é sobre sua história e a de Ezequiel Neves, que foi real. Por que levar essa história para a ficção? Você imagina que o leitor consegue distinguir as coisas ou a intenção era impossibilitar isso? 

Um acontecimento concreto me levou à escrita do romance. A agonia e a morte do melhor amigo, preso nos meses finais de vida ao leito do Hospital S. Vicente. Redescobri a mim, descobrindo que tinha perdido a única pessoa no mundo que conhecia minha vida em detalhes. Perdia meu “biógrafo”, tomando a palavra no sentido amplo. Tentei recuperá-lo pela escrita do romance para que, juntos, pudéssemos testemunhar sobre a vida a dois. Quanto à segunda pergunta, não sei se é importante – diante de uma obra de arte, no caso, um romance – que se deslinde o que é real e o que é imaginação. Não recorro à psicanálise, pois seria golpe baixo. Recordo o trabalho de grandes pintores que se dedicaram ao que eu chamo de biografias visuais. Quando se vê o retrato do papa Inocêncio X, de Francis Bacon, o que é de Velásquez (que pintou o papa antes), o que é do próprio Bacon e o que pode ser do pontífice retratado? A obra de arte é complexa e transitiva. Deve sugerir, encantar, fascinar. É feita para o leitor entrar nela e por ela navegar. Ao fazer parte da tripulação, acaba por descobrir, sob uma luz diferente e insuspeita, a pessoa que procurava ao comprar o livro.

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