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Primeiro russo na Flip

“Por que a Rússia é interessante?”, perguntou-se o escritor Vladímir Sorókin, durante uma entrevista, e logo respondeu: “Porque aqui as fantasias mais inesperadas e estranhas às vezes se tornam realidade”.


A frase de Sorókin é sobre seu país, mas poderia ser usada para definir a sua própria obra. Confirmado na programação da Flip 2014, em seus numerosos livros o próprio Sorókin mostrou-se hábil na capacidade narrativa de dar à realidade feições de fantasia – e vice-versa. 


Em Dostoiévski-trip, a peça teatral que o autor vai lançar durante a Flip, pela editora 34, cada um dos clássicos barbados da tradição literária russa é uma espécie de droga que transporta quem os “toma” para dentro de seu universo ficcional.


Seus primeiros trabalhos eram proibidos na União Soviética: até a Perestroika, processo de abertura política e cultural desencadeado por Mikhail Gorbachev a partir de 1989, Sorókin era obrigado a publicar na França e na Alemanha. O fim do regime comunista, contudo, não significou a plena liberdade para o escritor.


Em 2002, por exemplo, o movimento Nashi, espécie de “juventude de Putin”, que dá apoio ao todo-poderoso líder russo, organizou um protesto tão violento quanto heterodoxo: seus membros atiraram livros de Sorókin numa enorme privada construída para esse fim, em frente ao teatro Bolshoi. 


O romance que foi alvo do ataque, O toucinho azul, incluía, entre outras passagens iconoclastas, uma cena em que um clone do dirigente soviético Nikita Khrushchev sodomizava um clone de Josef Stálin. O autor ainda foi perseguido com um processo por divulgação de pornografia.


Em entrevista ao jornal El País, Sorókin afirmou que vê a Rússia de hoje mergulhando num isolacionismo comparável ao do século 16, quando o Estado russo foi fundado. A mescla anacrônica de futurismo e arcaísmo é um dos procedimentos prediletos do autor para retratar as contradições e os contrastes de seu país.


Um de seus romances mais recentes, que teve destaque ao ser publicado nos Estados Unidos e na Europa, O dia do opríchnik (inédito no Brasil), é uma fantasia futurista, mas ambientada nos cruéis tempos do czar Ivan, o Terrível. 


Os opríchniks, como eram conhecidos os guardas pessoais do czar, no livro usam barba e roupas tradicionais, mas têm modernas pistolas a laser e superescâneres para localizar os inimigos do Estado. Sorókin ainda chegou a produzir uma adaptação do clássico de Tolstói Anna Kariênina para o cinema, com a trama transposta para a ficção científica. 


Se o Brasil cultiva uma profunda relação com a literatura russa, até o momento ela se dava sobretudo no território dos clássicos. Primeiro russo a participar da flip, Vladímir Sorókin poderá trazer ao público brasileiro novas referências para conhecer seu país e sua cultura literária.

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