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Fala do mediador: João

João Gabriel Lima, redator-chefe da revista Época, foi o mediador de duas mesas na Flip 2014: "2x Brasil", que teve as presenças de Edu Lobo e Cacá Diegues, e "Narradores do poder", que reuniu os jornalistas David Carr e Graciela Mochkofsky. Ele lembra como foram as duas e comenta a edição deste ano.


"Gostei muito de ter participado das duas mesas. Acho que a primeira, de Cacá e Edu, fluiu melhor que a segunda, sobre jornalismo. Na primeira mesa, como disse antes, gostei muito de os dois convidados terem, de certa forma, reconstituído o clima daquela 'belle époque' carioca. Mérito totalmente deles, claro – mediador bom é aquele que não aparece, apenas levanta bolas para os outros chutarem. 


Eles contaram muitos casos que parecem simples anedotas, mas constituem lições profundas de como é importante criar um ambiente em que os artistas se encontrem. Isso é fundamental para que a cultura floresça. E, inevitável dizer, a Flip, ainda que uma vez por ano, é um desses ambientes, e precisa ser cada vez mais.


A mesa com Graciela Mochkofsky e David Carr padeceu do fato de os dois jornalistas pertencerem a tradições muito diferentes. Jornalismo tem a ver com democracia, e democracias maduras – como os Estados Unidos – têm uma atividade jornalística muito mais confortável e vibrante do que democracias ainda em amadurecimento, como a Argentina. 


Esta mesa, no entanto, teve um momento inesquecível. A pergunta final que cada um fez para o outro. As respostas contrapuseram, de forma poética, a visão pessimista de Graciela – que, acho eu, tem a ver com o estado precário da democracia em seu país – com a visão otimista de Carr. Para ele, o jornalismo é sobretudo um idealismo – acho que o jornalismo é sempre uma profissão idealista, pelo menos me sinto assim – e esse idealismo vai acabar superando a crise que o negócio jornalístico vive. 


Achei legal que a mesa terminasse com essas duas visões, que fazem o público pensar. Ainda mais o público brasileiro – dado que, em termos de democracia, estamos talvez num ponto intermediário, não tão evoluídos como os Estados Unidos, mas também sem os problemas tão graves que infelizmente um país tão fantástico quanto a Argentina vem enfrentando.


Achei essa Flip certamente a melhor entre as três últimas. Para mim, a Flip é primordialmente um festival de literatura, claro, mas também um festival que reúne gente ligada a diferentes áreas da cultura. De um lado, discute-se criação literária. E a Flip teve boas mesas com essa vocação. Eu destacaria, entre as que vi, as conversas entre Eleanor Catton e Joël Dicker. Entre Keret e Villoro. E a entrevista com Jhumpa Lahiri, muito bem conduzida pelo Ángel [Gurría-Quintana]. Saí dela com vontade de voltar a escrever ficção. 


De outro lado, tivemos as entrevistas sobre cultura. Gostei bastante das conversas sobre o Millôr, descontraídas. Do bate-papo 'Livre como um táxi', em que os dois autores tiveram uma conversa bastante interessante sobre a criação na área da crônica. Da conversa entre Mathieu [Lindon] e Silviano [Santiago], com o paralelo entre a Paris existencialista e a Belo Horizonte provinciana. E da conversa que eu próprio conduzi entre Edu Lobo e Cacá Diegues – a qual, a meu ver, mostrou a importância cultural para o país de um pólo criativo artístico vibrante, como foi o Rio dos anos 1950 a 70.


Só 'faltei' a três Flips. Considero que esta última esteve entre as melhores. Como disse, vejo a Flip como um fórum de debates sobre criação literária e sobre cultura em geral. O ponto central é que esses debates não são voltados a um público acadêmico, e sim a apaixonados por livros. Ou seja, um público que se diferencia por gostar de ler, mas é formado por gente sobretudo leiga, que tem uma relação afetiva, e não acadêmica, com o mundo dos livros. Esta última Flip evitou completamente o tom de simpósio. Ponto para ela."

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