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Fala do autor: Eliane

A jornalista gaúcha Eliane Brum participou de três mesas da Flip 2014, duas delas como mediadora. Ela intermediou duas conversas sobre pensamento indígena – quando a fotógrafa Claudia Andujar esteve com o pajé Davi Kopenawa (na mesa “Marcados”) e entre os antropólogos Eduardo Viveiros de Castro e Beto Ricardo (na mesa “Tristes trópicos”). Ela conta sobre como foi sua participação na festa e o que achou da edição deste ano.


“Achei a programação da Flip 2014 muito consistente, tanto por ampliar a visão sobre o que é literatura, a partir de um olhar mais atual, em que o diálogo entre os gêneros é maior e as fronteiras menos nítidas e dadas, como pela relevância do que foi dito. Neste sentido, esta foi uma Flip que fugiu das obviedades e trouxe provocações novas ao debate literário. Na minha percepção, Paulo Werneck teve vários méritos na curadoria, entre eles a ousadia de se arriscar e conceber um festival com o espírito do tempo. 


As duas mesas que mediei, sobre a questão indígena, um dos debates mais pertinentes do Brasil atual, são um exemplo disso. Na primeira, Davi Kopenawa e Claudia Andujar trouxeram um outro ser e estar no mundo para o palco da Flip. Se a experiência literária é também a experiência da alteridade, essa mesa foi um convite para se abrir para o tempo do outro. E até para a estranheza, no melhor sentido, de uma língua outra, no caso de Davi Kopenawa, uma língua fora do cânone. E de uma outra linguagem, a da fotografia, no caso de Claudia Andujar. Quem foi capaz de fazer esse movimento teve nesta mesa um momento inesquecível. 


A segunda, com os antropólogos Eduardo Viveiros de Castro e Beto Ricardo, teve um ritmo empolgante, pela originalidade e pela fluência da narrativa dos dois autores. Para mim, o momento inesquecível foi a reflexão sobre o fim do mundo e o quanto temos de aprender com os povos indígenas, cujo mundo acabou em 1500, com a chegada dos europeus. A afirmação de que os índios são o futuro, não o passado. Essa mesa foi contundente, viva, o público saiu dela com muitas interrogações, alguns até perturbados, porque o debate fez com que se deslocassem de lugar. 


Os dois escritores levaram à Flip uma abordagem original para temas que, em geral, as pessoas estão mais acostumadas a encarar sempre da mesma forma – ou nem encarar. Ficou claro que estamos todos implicados na questão indígena, que ela diz respeito à vida de todos, no sentido mais profundo. E que este é, sim, um debate literário. Achei a abertura dos telões para o público extremamente importante, também, para democratizar o acesso.”

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