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Vinicius “revive” em noite inspirada

Aos olhos dos puristas, a transição da poesia de Vinicius de Moraes do universo dos livros para o cancioneiro popular pode ter sido uma decepção, um lento e sucessivo movimento de “ladeira abaixo”. Visão bem diferente da do poeta Manuel Bandeira, para quem o sucesso alcançado por Vinicius na música popular teria sido motivo de inveja.

Foi assim – contanto histórias como essa, analisando, cantando e tocando músicas do grande cancionista brasileiro – que o crítico e ensaísta José Miguel Wisnik, o violonista Arthur Nestrovski e a cantora Paula Morelenbaum fizeram uma aula-show ontem à noite, no palco do telão, em Paraty. A celebração pelo centenário de nascimento do poeta e compositor teve o mesmo clima leve, poético e hedonista que marca boa parte de suas canções. 

Wisnik declamou sonetos para explicar o encontro do Vinicius poeta com o Vinicius cancioneiro. Falou ainda da importante interação entre música e letra presente em canções da bossa nova, como Samba de uma nota só e Desafinado, de Tom Jobim e João Gilberto, respectivamente. “São sinais de uma interação total entre poesia e música que se dava, então, na cancão popular.”

Ao cantar A felicidade, o crítico chamou atenção ao fato de que essa música tem um salto melódico ascendente que sugere felicidade, e não tristeza. “É como se houvesse uma inversão, porque converter a tristeza em felicidade e saber que a felicidade se converte em tristeza é um dos fundamentos líricos da poesia, da poética de Vinicius de Moraes.”

Diretor artístico da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, Nestrovski mostrou, ao violão, a habilidade que Vinicius tinha para, ao trocar uma única nota, dar outra feição ao acorde e transformá-lo em outra música, muito próxima da primeira e, ainda assim, completamente distinta. 


Cantando em uníssono com os músicos, o público contribuiu, baixinho e afinado, em músicas como Tarde em Itapoá e Chega de saudade.

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