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Uma história pessoal do cinema

Na sexta-feira à noite, o público da Flip encontrou-se com um dos maiores cineastas brasileiros: aos 85 anos, Nelson Pereira dos Santos resgatou histórias da produção de alguns de seus filmes, como Rio 40 grausComo era gostoso o meu francês e Vidas secas, antológica adaptação do livro de Graciliano Ramos, na mesa Uma vida no cinema. Dividiu o palco com sua amiga e colaboradora Heloísa Maria Buarque de Hollanda, a cantora Miúcha, e o mediador Claudiney Ferreira, jornalista e gerente do Núcleo Audiovisual e Literatura do Itaú Cultural. 

Com Nelson, Miúcha roteirizou quatro filmes: aquele baseado em Raízes do Brasil, livro de seu pai, Sérgio Buarque de Hollanda, os dois que o cineasta realizou sobre Tom Jobim, A luz do Tom e A música segundo Tom Jobim, e um último que nunca chegou a ser produzido, Transe de amor. Por que você convidou a Miúcha para trabalhar com você?, perguntou Claudiney logo no início do encontro. “Pelo bom humor”, respondeu Nelson. Imediatamente antes, a cantora havia descrito como se conheceram: 35 anos atrás, Jards Macalé a embrulhou para presente e entregou a Nelson na festa de 50 anos do cineasta. Sobre adaptar Raízes do Brasil, Miúcha declarou que foi inenarrável revisitar a obra do pai pelos olhos de Nelson. “Pude entender meu pai quando jovem, como se ele fosse um amigo”, disse. 

Procurando estimular Nelson com perguntas informais, Claudiney o guiou por um exame de sua carreira, tocando em pontos como seu método de fazer filme – não há um, ele respondeu –, o estudo do cinema e as influências. “Nosso cineasta mais literário”, como definiu Claudiney, em referência às adaptações de autores como Nelson Rodrigues e Jorge Amado, contou de como chegou à literatura transformada em cinema, pelas mãos de Graciliano. Havia recebido uma encomenda de filme, sobre a terrível seca de 1958; ao chegar em Juazeiro, na Bahia, deparou-se com um mundo que não conhecia. “Eu vi o que sabia existir através da literatura de autores como Graciliano, Rachel de Queiroz: o flagelado, aquelas crianças famélicas... A única comparação que me passava pela cabeça era o campo de concentração”, disse. 

Começou então a escrever um roteiro que tratasse do tema, mas confessou que esse texto “era superficial, não tinha conteúdo”; recorria a obras que já tinham tratado do assunto, como Vidas secas, “até que, lá pelas tantas, me bateu uma luzinha: e porque não adaptar esse livro para o cinema? Saí correndo com o livro debaixo dos braços”.

Uma das cenas mais conhecidas do romance de Graciliano, a morte da cachorra Baleia está estampada, neste ano, com trecho de manuscrito na entrada da tenda dos autores; no encontro de sexta-feira, o trecho do filme de Nelson que transpôs essa parte da narrativa para o cinema foi exibido nos telões. 

Em seguida, Nelson deteve-se sobre a questão da fotografia sem filtro do filme, que completa, em 2013, 50 anos de sua primeira exibição, não antes de contar mais um “causo” a respeito da cachorrinha usada para as filmagens. A ideia inicial tinha sido deixá-la faminta para que, no momento de gravar, realizasse o que a equipe precisava seguindo alguns bifes crus. Mas Baleia não respondia a esse apelo, pois era alimentada secretamente por Jofre Soares, que deixava cair comida disfarçadamente de seu prato. “Eu falei ‘Tudo bem, já que você ficou tão próximo dela, você vai dirigi-la. Faça com que ela cumpra as orientações’”, e assim aconteceu. A cachorra também foi foco de atenção no Festival de Cannes de 1964, quando o filme foi exibido (e aclamado) ao lado de Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha. 

Outro trecho encerrou a conversa: a clássica filmagem de Elis Regina e Tom Jobim cantando Águas de março. Aplaudido de pé, Nelson era ovacionado por um público emocionado pelo filme, pela música, pela obra e a presença do cineasta.

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