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“Protestos indicam crise de representatividade política”

A sucessiva onda de protestos no país foi tema da mesa extra O povo e o poder no Brasil, que encerrou ontem a penúltima noite da Flip, na Tenda dos Autores. Em ao menos um aspecto, o professor de filosofia da Unicamp Marcos Nobre e o economista André Lara Resende concordaram. As recentes manifestações evidenciam uma crise de representação política.

Com mediação do jornalista William Waack, os dois participantes falaram a um auditório lotado, que participou enviando perguntas por escrito e, em muitos momentos, manifestou-se aplaudindo as colocações de ambos e, em outras, hostilizando o mediador com vaias.

Para Nobre, é preciso dar perpectiva ao que aconteceu, sem minimizar ou interpretar as manifestações como se fossem uma festa, algo desimportante. “Esse momentto é histórico, o que aconteceu não é trivial, porque o povo retomou para si o poder que lhe tinha sido usurpado por um sistema político que, ao longo de 20 anos, se blindou contra o poder das ruas.”

Apesar de discordar da ideia da retomada do poder pelo povo, Resende apontou a necessidade de repensar a democracia representaviva. “O povo não reconhece nos poderes constituídos, em toda as suas esferas, o seu representante legítimo, fenômeno que não é exclusivamente brasileiro. Há, sem dúvida nenhuma, uma certa sensação de que a democracia representativa está em crise e precisa ser revista, repensada e readaptada”, disse Resende, um dos formuladores do Plano Real, referindo-se à primavera árabe.

O economista reforçou sua crença de que as motivações dos protestos são difusas. “Todos os outros fenômenos de manifestações nas ruas [como o do impeachment de Collor] tinham causa específica. Este não. Tem muitas demandas e causas difusas”, disse. “O Estado brasileiro – o Estado, e não o governo, porque o problema transcende o governo – tem um projeto de país que se tornou anacrônico. Um projeto antigo, formulado na segunda metade do século 20 essencialmente para estimular o desenvolvimentismo.”

A despolarização do sistema político brasileiro, por meio da criação do que Nobre chama de mito das supermaiorias, “de que não basta a um presidente ter uma maioria, de que ele precisa de uma supermaioria para se manter no poder”, foi apontada pelo professor como uma fonte de insatisfação da população. “Esse mito foi vendido à sociedade como sendo algo necessário”, disse. “A supermaioria não é mais nada do que tornar o sistema partidário brasileiro em uma pasta uniforme, uma geleia geral na qual você não consegue mais distinguir o que importa. E nesse momento se perde a polarização do sistema político.”

Recorrentes perguntas sobre no “que vai dar” a onda de protestos foram feitas pelo público. Tanto Resende quanto Nobre defenderam que não é hora de pensar nas eleições do próximo ano. “Já deu. Colocar o que vai acontecer em 2014 é diminuir a importância do movimento agora. Quando chegar 2014, vamos discutir 2014. Enquanto isso, vamos falar de saúde, educação”, disse Nobre.

Questionados sobre o papel da internet na articulação dos protestos, se ela seria a nova ágora da democracia, os participantes foram unânimes em reconhecer o poder das redes sociais, em contraponto à grande mídia. “Em boa parte, agora, a pauta da mídia é feita pela rede”, disse Nobre.

Vaiado por alguns grupos e aplaudido por outros, Waack concluiu o debate dando sua opinião sobre as manifestações. “Movimentos sociais sem clara definição provocam menos mudanças do que as esperanças que despertam.”

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