noticias

a festa

Prazer e gozo na leitura e na escrita da literatura

Poucos meses atrás, Lila Azam Zanganeh, autora de O encantador, iniciava seus estudos em português – o sétimo idioma que a francesa, filha de pais iranianos, buscaria falar com fluência. Hoje no começo da tarde, na mesa O prazer do texto, Lila não só usou apenas a nossa língua para conversar com Francisco Bosco, poeta, letrista, filósofo e escritor carioca, como leu um trecho de seu livro na edição brasileira e cantou o primeiro verso e o “quaiscalingudum” de Trem das onze, de Adoniran Barbosa. Pedindo desculpas pelo sotaque e pelos (relativamente poucos) erros, recebia a todo momento aplausos do público, que parecia cativado por sua animação ao falar do escritor russo naturalizado norte-americano Vlamidir Nabokov, tema de seu livro. 


Intitulada como um dos textos de Roland Barthes, a discussão teve início com uma explanação dos conceitos de prazer e gozo em textos literários segundo o pensador francês, sobre quem Bosco escreveu em seu doutorado: o primeiro, aproximando-se da cultura, enquanto conjunto de elementos em que nos reconhecemos (os romances do século 19, como os de Balzac, estariam ligados ao prazer pelas representações que nos situam no mundo tal como o conhecemos); o segundo conceito, de gozo, remonta a Sigmund Freud e se relaciona em Barthes à destruição absoluta da cultura (James Joyce se encontra desse lado, por sua desconstrução radical da língua, por exemplo). 


A explicação viria a se combinar à noção de felicidade de Nabokov, que norteia o livro de Lila. “Para Nabokov, os romances mais importantes da história da literatura são contos de fadas: Em busca do tempo perdido, de Proust, era um conto de fada, Ulysses, de Joyce, era um conto de fadas. Isso porque a literatura é como um passe de mágica, ela cria universos únicos apenas com a linguagem”, disse a autora, associando então esse êxtase, prazer do texto com a beleza de sua linguagem. 


Princípios norteadores do bate-papo definidos, o jornalista Cassiano Elek Machado, curador da Flip em 2007 e mediador desta mesa, perguntou aos autores sobre o prazer de escrever, não mais o da leitura. Lila contou então sobre o imenso prazer que sentiu ao escrever determinado trecho de seu livro, uma entrevista ficcional com Nabokov que teria se passado à beira do lago Como: “Foi como um jogo de espelhos infinitos, eu procurando a voz dele dentro da minha, dentro da dele, dentro da minha...”. Por O encantador ser um misto de ensaio, ficção e memória, alguns jornalistas, disse ela, não se deram conta de que esse encontro era inventado (ela tinha apenas alguns meses de idade quando o autor morreu, em 1977).


A conversa se estendeu ainda sobre temas relacionados a ensaios de Bosco; 35 deles, publicados em veículos como o jornal O Globo, estão reunidos do volume Alta ajuda. Bosco falou sobre a ideia de Deleuze de que os escritores seriam médicos do mundo. “Eles doam sua saúde para que a vida passe por eles e retorne ao mundo, para que a vida seja oferecida de novo aos leitores nas obras de arte. São terapeutas do mundo à custa de sua própria saúde”. 


O cantarolar de Trem das onze nasceu como comentário a outra fala de Bosco, relacionada a um de seus ensaios: sobre canções brasileiras que recebem títulos como Tchubaruba (de Mallu Magalhães) ou incorporam trechos como o “Tê,tê, teretete” de Taj Mahal, de Jorge Bem Jor. “É como se a canção não suportasse a sua tensão [como híbrido de palavra e som] e quisesse virar completamente música. Ela explode em alegria”. 

share
Logo da Casa Azul