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Os processos de escrita de Lydia Davis e John Banville

Conta-se que certa vez perguntaram a Joyce como explicaria Ulysses em uma frase. Ao que o escritor respondeu: uma frase de que tamanho?

O irlandês John Banville aproveita a anedota para defender uma ideia: não existem regras para a prosa. Que tamanho, por exemplo, deve ter uma frase? “Poetas têm um pouco mais de sorte porque têm regras que podem seguir. Não é o caso na prosa”, disse Banville, que nesta sexta (6) se apresentou na Tenda dos Autores ao lado da americana Lydia Davis, encontro mediado por Samuel Titan Jr. Assim era respondido o tema da mesa - Os limites da prosa - e a conversa, a partir daí, enveredaria principalmente pelo processo de criação de ambos.

“Quando eu era jovem, conseguia controlar tudo, sabia a última frase antes de escrever a primeira”, disse Banville, quando Titan Jr. o questionou sobre a estrutura do romance Luz Antiga, que é repleto de duplos e desdobramentos. “Agora, tudo para mim é uma grande confusão, e idade não ajuda muito. Mas hoje estou mais bem-posicionado do que quando era um jovem arrogante, e sinto que cheguei a um momento de sonho controlado. As pessoas perguntam: de onde vêm as ideias? Eu digo: de onde vêm os seus sonhos? Não sei responder essa pergunta e prefiro não saber.”

Lydia também viu mudar sua relação com a escrita ao longo dos anos. No início, diz, seu foco estava nos contos tradicionais – “com cenas, diálogos, personagens e descrições”... Mas, com o tempo, sentiu que seria mais prazeroso tentar algo diferente. “Tem um escritor chamado Russel Edson que gosta de dizer que é poeta, mas, para mim, escreve contos”, comentou. “É ficcionista, mas não usa recursos normais da ficção, e eu me senti liberada a partir do momento em que o li.”

Além disso, a escritora reavaliou seu olhar sobre o conteúdo dos textos. “Eu abordava poesia de maneira errada. Queria escrever uma poesia que fosse cheia de coisas verdadeiras e começava a pensar: quais são as coisas em que acredito e como escrever sobre isso? Era de fora para dentro”, contou. “Hoje, é o contrário. É deixar que o material passe por você para a página e se apresente.”

"Só loucos fascistas existem em estado de certeza plena", disse Banville. "Ter dúvidas é estar vivo."

Por falar em dúvidas: como definir os textos de Lydia Davis? "É controverso se meus contos são contos mesmo", comentou a escritora. Tipos de Pertubação, publicado no mês passado no Brasil, traz tanto textos de uma linha, como Exemplo de gerúndio num quarto de hotel, como outros mais longos (A Sra. D. e suas empregadas se estende por 32 páginas). (i>Rumo ao sul, lendo Pioravante marche, por sua vez, é um texto cíclico composto, principalmente, por notas de rodapé. São, na definição de Lydia, “fragmentos de uma história completa”. “Começam no meio e terminam no meio. Evito concluir meus contos.” 

Sua estratégia, disse a americana, é anotar em bloquinhos (e guardanapos, envelopes...) coisas que chamam sua atenção. “Algumas se tornam contos imediatamente. Outras viram histórias em potencial, que levo para minha mesa, leio e vou melhorando aos pouquinhos. Se estiver com dificuldade com um conto que está quase lá, eu sou paciente, deixo o conto esperando o tempo que for necessário. Meses... Anos...”, contou Lydia, aproveitando para perguntar a Banville como ele escreve seus romances. “Você consegue montar um fluxo de linguagem e ideias. Já eu, quando começo a trabalhar no dia seguinte, acho difícil entrar de novo naquele estado mental.”

“Romance é uma forma vulgar, no melhor e pior sentido da palavra”, respondeu Banville, que disse admirar a pureza do trabalho de Lydia, em contraposição ao "circo" que ele arma em seus livros. “Você tem que se manter intacto no período de escrita. Às vezes, quando eu terminava um romance, já tinha uma nova visão do mundo, e tinha que revisar tudo. Mas é um processo de se manter inteiro. Embora, como disse no início da conversa, o romance seja uma mudança constante, e nós temos que viver com isso.”

Veio da audiência uma pergunta sobre a formação acadêmica de Banville: arrepende-se de não ter feito faculdade? “Eu me sinto como Shakespeare, Hemingway, somos todos iguais”, brincou o escritor. “Acho que a faculdade teria me dado uma forma mais disciplinada de ler. Sinto falta disso. Por outro lado, eu teria medo. Nunca teria escrito um romance sobre Copérnico. Não ter entrado no mundo acadêmico me deu coragem para ser romancista.”

Remetendo a uma declaração famosa de Banville, Samuel Titan Jr. perguntou por que ele havia dito que se envergonha de seus livros. “Meus romances são melhores que todos os outros”, disse o escritor, fazendo questão de indicar, em seguida, a ironia da frase. “Sinto vergonha dos meus livros porque eles fracassaram. Mas isso nos leva de volta a Beckett: você vai fracassar. Mas, da próxima vez, vai fracassar melhor.”

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