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Intelectuais de esquerda debatem manifestações

As aspirações da multidão que saiu às ruas do país no mês de junho foram o tema da mesa Da arquibancada à passeata, espetáculo e utopia, que reuniu no início da noite deste sábado três importantes pensadores de esquerda: o intelectual inglês T.J. Clark, o filósofo Vladimir Safatle e o psicanalista Tales Ab’Saber. 

No texto que leu no início do debate, Clark declarou que não se pronunciaria sobre as manifestações, por considerar que isso seria presunçoso de sua parte – “Foi-se o tempo em que um intelectual europeu podia cair de paraquedas na política de um país distante e se oferecer para situar o que estava acontecendo”, disse; ao invés disso, falou do uso da imagem pelo Estado desde a Antiguidade e do poder da imagem de persuadir, atrair e convencer – uma “colonização” que, ele acredita, pode ser desfeita. “Nem Pelé consegue desviar essa raiva”, completou, em referência as aclamações contrárias aos gastos e acertos políticos envolvidos na realização da Copa do Mundo e das Olimpíadas. 

No entanto, não houve formas de se furtar ao tema, uma vez que a mesa girou em torno dele a partir das falas de Safatle e Ab’Saber e com as perguntas do público. Ao longo da noite, o inglês ainda partiria de suas reflexões sobre o movimento de esquerda atualmente e sobre a internet para comentar questões como a demanda simples do Movimento Passe Livre – contra o aumento das tarifas do transporte público – e como ela representaria uma esperança para a esquerda atual, opinião que ecoa seu Por uma esquerda sem futuro, ensaio que lança na Flip.

Em sua introdução ao debate, Safatle primeiro descartou a ideia de que o Brasil não é um país de poucas manifestações, destacando que os últimos 20 anos foram um hiato em nossa história nesse sentido. Levantou e desenvolveu brevemente alguns pontos que lhe pareciam relevantes: o de que há um novo ciclo e modelo de embates, relacionando-os às manifestações em outros pontos do mundo; a consciência cada vez mais clara de que vivemos um esgotamento da democracia parlamentar, uma crise de representação que atinge também a imprensa; a busca por um novo ciclo de combate à desigualdade, depois do esgotamento do lulismo, nas reivindicações por melhorias nos serviços públicos. No fim de sua fala, discordou de quem atribui ao pensamento conservador a pauta do fim da corrupção. “O que parece que se quer é que o último mensaleiro petista seja enforcado nas tripas do último mensaleiro tucano”, disse, arrancando aplausos da plateia. 

Palmas acompanharam a fala de Ab’Saber, que enxerga a atuação dos “meninos” do Movimento Passe Livre como um trabalho político que lê as contradições da sociedade de classes e entende o ponto em que deve apostar para ganhar força para sua demanda e levar a totalidade para seu lado. Destacou a vitória do MPL contra a polícia: “Eles venceram com três dias de manifestação o longo déficit brasileiro de crítica às instituições policiais e militares que não foi feita na nossa democracia”, disse, sendo imensamente aplaudido ao mencionar os “restos insepultos da nossa ditadura militar”. Para encerrar este momento inicial, tratou de como o pensamento conservador lidou com os protestos, tentando fragmentar a integridade esclarecida e consciente de suas reivindicações do movimento.

O debate continuou com questões como uma irracionalidade tributária no sistema brasileiro, abordada por Safatle, o papel das redes sociais nos acontecimentos e a constituinte que havia sido convocada. O que se afirmou, de forma clara e unânime, foi uma busca pela reformulação da democracia, segundo as reivindicações das últimas semanas.

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