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Grande mídia está perdida com manifestações

Há uma crise profunda no jornalismo, demonstrada pela cobertura que os canais tradicionais de comunicação fizeram das manifestações que varreram o Brasil no mês de junho. Essa é a ideia que resume a mesa “Narrar a rua”, que ocupou a Tenda dos Autores na noite desta quinta-feira (4), dentro da programação extra da FlipMais dedicada às passeatas.

Mediada pela jornalista Cristiane Costa, o encontro reuniu o correspondente do jornal El País no Brasil, Juan Arias, o coordenador do coletivo Fora do Eixo, Pablo Capilé, o poeta Fabiano Calixto e Marcus Vinicius Faustini, escritor e diretor teatral que criou a Agência Redes para a Juventude, de projetos culturais na periferia.

Blogs, Facebook, Twitter, jornais, televisões e rádio -- todos criaram narrativas, muitas vezes conflitantes, da insatisfação geral que se abateu sobre os brasileiros e fez milhões saírem às ruas em protestos por centenas de cidades do país. Da perplexidade inicial surgiram conflitos entre a velha mídia e a nova mídia, cujo maior expoente é a Rede NINJA (Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação).

Com uma câmera na mão e a cara na rua, diferentemente dos helicópteros e prédios altos usados como refúgio para jornalistas de televisão, os jornalistas sociais tentaram narrar de um modo diferente o que estava acontecendo. E avaliam que deu certo. Segundo Capilé, um dos criadores da rede, a cobertura do NINJA, chamada de pós-TV, atraiu certo dia 180 mil pessoas, audiência maior do que algumas emissoras de TV.

“Há uma sinergia com experiências orgânicas”, afirmou Capilé. “É a diferença entre quem consegue entender esse novo momento e aqueles que não conseguem superar a crise dos intermediários. A mídia, que ainda é acostumada a ser o filtro e mediadora dos interesses, é pega de calças curtas quando precisa apresentar uma nova solução.” O NINJA enviou um correspondente para o Egito nesta semana, com dinheiro arrecadado por meio de financiamento coletivo.

Para Capilé e Faustini, além de não entender as manifestações, a mídia tradicional ainda tentou se apropriar do movimento. “Todo mundo quis controlar o movimento quando percebeu que ele era expressivo”, disse Faustini, que prepara um filme sobre um casal que se conhece nas manifestações, com imagens próprias e outras captadas na internet. “E ainda há a tentativa de hierarquizar o movimento, com expressões como vândalos em oposição a quem estaria se manifestando de verdade.”

Vândalos, inclusive, é como chamam a si mesmos os poetas do e-book Vinagre: Uma Antologia de Poetas Neobarrocos, organizada por Calixto com poemas feitos no calor do momento das manifestações. “É uma forma de pensar a linguagem como ferramenta política, como a mídia fez. Ressignificamos a palavra vândalo como uma expressão poética. Fazer poesia é uma forma de resistência, não há nada mais anárquico”, afirmou.

Representante da “velha mídia”, Juan Arias defendeu o papel do jornalista como filtro de informações em uma sociedade que se pauta pelas redes sociais, de onde saem muitas coisas boas, segundo o correspondente, mas também muitas mentiras. “Novo jornalismo é mais capilar, tem mil vozes, por isso tem mais perigos. O movimento nasceu nas redes sociais, mas começou a ser forte quando o jornalismo clássico o transformou em notícia. Juntos temos que dar visibilidade a esse mundo novo”, disse o espanhol.

O mundo novo a que se refere o repórter é o Brasil que começou a ir para as ruas, exigindo “hospitais de primeiro mundo, escolas de primeiro mundo”. Capilé lembrou que os oito primeiros anos do PT no poder tiraram milhões de pessoas da miséria, mas que houve retrocessos nos últimos anos – e que o governo não consegue entender o que se passa nas ruas. “Caiu um monte de fichas e todos estão querendo catá-las. Houve um salto quântico de consciência, o que jogou o nível do debate para cima. Ficar em cima do muro hoje não é uma opção. O Brasil tem o papel fundamental de apresentar uma nova estética de se fazer política no século 21”, afirmou.

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