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Graciliano diz muito ao país rebelado nas ruas

O tempo foi pouco para todas as questões levantadas na primeira mesa desta sexta (5), Graciliano Ramos: ficha política. Como fica a autonomia de um intelectual quando ele trabalha para um poder constituído? Quais os limites da forma como Graciliano é apresentado na história oficial? É possível relacionar as preocupações sociais do autor alagoano com os problemas sexuais enfrentados por seus personagens?


Composta pelo pesquisador brasilianista Randal Johnson, pelo sociólogo Sergio Miceli e por Dênis de Moraes, biógrafo de Graciliano, a mesa foi moderada por José Luiz Passos, que já começou com as “regras”: “Contato físico somente acima da cintura, cotovelo somente abaixo do pescoço. [O curador] Miguel Conde me autorizou a usar spray de pimenta”. Em sua fala, Dênis de Moraes não deixou a brincadeira passar impune: “A gente pega o spray de pimenta e devolve para a repressão. Para que a cidadania possa se manifestar e a repressão possa recuar no Brasil.”


Realmente, foi Passos que teve de lidar com a voz das ruas – ou melhor, com a voz do auditório. O público estava tão entretido com a análise de Miceli sobre a questão sexual na obra de Graciliano que, quando o moderador tentou acelerar a conversa, a plateia chiou. “Fico feliz que a voz da rua tenha calado o moderador, e não o participante”, riu Passos.


Miceli abordou CaetésSão Bernardo e Angústia a partir da insegurança sexual de seus protagonistas: João Valério, Paulo Honório e Luís da Silva, respectivamente. “São três homens torturados que lidam com o problema da impotência e da potência social, que tem uma transferência imediata para o domínio afetivo e sexual”, disse o sociólogo, autor de livros como Intelectuais à Brasileira e Vanguarda em Retrocesso. “O grande gênio de Graciliano está na capacidade de não dissociar todos os domínios da existência. Essa transcrição entre a experiência do declínio, da destituição, e o tormento sexual e amoroso, isso é lidar com a política no que interessa, que é na subjetividade.” 


“Isso mostra a maestria de Graciliano, que permite várias leituras”, comentou Randal Johnson, professor da Universidade da Califórnia e um dos principais estudiosos estrangeiros da cultura brasileira, especialmente cinema. Para ele, Graciliano teve muita sorte na transposição de Vidas SecasSão Bernardo e Memórias do Cárcere para as telas. “Essas adaptações permitiram que os cineastas fizessem intervenções políticas sobre suas respectivas épocas. 


Com Vidas Secas (1963), Nelson Pereira dos Santos queria intervir nos debates que estavam acontecendo naquele momento, como a reforma agrária. Em 1972, São Bernardo, de Leon Hirszman, trouxe a crítica a determinado modelo econômico, o chamado capitalismo selvagem.”


O escritor nos deixa como legado, segundo Dênis de Moraes, autor de O Velho Graça, “a noção de que é possível sim praticar política com ‘p’ maiúsculo”. “Ele diz muito ao país que está rebelado nas ruas. Teremos uma Copa do Mundo milionária num país com tantos problemas, um sistema de saúde falido, um sistema educacional com tantos problemas. Graciliano chama nossa atenção para a necessidade da coerência ética.”


O biógrafo também abordou a passagem de Graciliano pela revista Cultura Política, que circulou de 1941 a 1944. Tratava-se de uma das peças para difusão massiva das realizações do Estado Novo e o culto à personalidade de Getúlio Vargas – o mesmo governo que, anos antes, havia prendido o escritor alagoano. O motivo? Graciliano passava por um momento de extrema necessidade financeira. Ainda assim, segundo Dênis de Moraes, o escritor conseguia inserir críticas ao governo na publicação.


Sergio Miceli manifestou sua discordância. “Ninguém coloca em dúvida a honra de Graciliano. O problema é que a relação de intelectuais com Estado no Brasil é tão constitutiva que não podemos convertê-la em problema individual”, afirmou. “Os intelectuais não podem converter esse imaginário de que trabalham para o poder constituído e conservam autonomia plena. Isso é só na fantasia, certo?”


Foi a vez de Dênis de Moraes remeter a uma frase do crítico Antonio Candido, presente no prefácio de um dos livros de Miceli: “Eu a aplico não apenas a Graciliano, mas a outros intelectuais: existe diferença entre servir sob uma ditadura e servir a uma ditadura”.


A discussão prometia ir longe, mas o tempo da mesa chegava ao fim. E uma das perguntas levantadas por Passos entrou para o grupo das que ficaram sem resposta: Teria Graciliano Ramos se tornado patrimônio exclusivo da esquerda?

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