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Dimensões míticas nas histórias particulares

Em pequenas cidades litorâneas de veraneio se passam os romances do francês Jérôme Ferrari, vencedor do Goncourt de 2012, e de Daniel Galera, tradutor e ensaísta, colunista de O Globo e autor de romances como Até o dia em que o cão morreu. O sermão sobre a queda de Roma, do primeiro, narra a aventura dos amigos Matthieu e Libero, que se mudam para a Córsega, no mar Mediterrâneo, onde gerenciam um bar. Barba ensopada de sangue, do segundo, acompanha o estabelecimento de seu protagonista em Garopaba, em Santa Catarina, para onde ele vai com o objetivo de encontrar pistas sobre seu avô, que se tornara uma lenda local. Na mesa literária que reuniu os dois escritores, Tragédias no microscópio, eles falaram sobre os romances, características de seus personagens, os temas do desejo e do sofrimento, presentes nos livros de ambos, sobre suas influências literárias, a relação entre suas próprias tragédias e as de suas criaturas e editoras independentes. 

Logo no início do encontro, a mediadora, a escritora, professora e crítica Noemi Jaffe, aproximou os dois romances pela forma como eles articulam histórias particulares com uma história coletiva. Barba ensopada de sangue, por exemplo, acompanha o dia a dia banal de seu protagonista, mas em sua estrutura acaba por revelar aspectos míticos do enredo, pesquisa que Galera buscou na escrita do livro. O sermão sobre a queda de Roma parte da ideia de que o mundo, como o homem, nasce, cresce e morre. “A comparação desse mundo cósmico com a pequenez da minha vida foi algo que me inspirou muito e me permitiu articular várias histórias”, disse Ferrari. 

Elementos como o nível de consciência, o aspecto físico, a não nomeação, a felicidade ou tristeza e o problema neurológico do personagem de Galera foram levantados por perguntas da mediadora e do público; em suas respostas, o escritor acabou por revelar algumas intenções ou pesquisas relacionadas ao romance. 

A descoberta da prosopagnosia, patologia em que seu portador não consegue reconhecer rostos, se deu, por exemplo, em um livro do neurocientista Antonio Damasio. “Como o Barba tem alguns elementos da narrativa de mistério, pensei que poderia usar essa característica nesse personagem; se ele não pudesse identificar as pessoas, isso provocaria situações interessantes”, disse Galera, que contou que a doença se embrenhou no romance em decisões sobre o enredo e o estilo. O autor reforçou a semelhança entre o protagonista e o avô que procura, de modo que essa conexão perdida com a família também fosse com ele mesmo, e, narrativamente, aproveitou a necessidade do protagonista de observar muitos detalhes das pessoas com que se relaciona para criar descrições detalhistas; assim, consegue fazer com que o leitor veja o mundo pelo ponto de vista do personagem, aumentando a sensação e que está experimentando a realidade dele. 

Com relação a Matthieu, um dos protagonistas de O sermão sobre a queda de Roma, Ferrari disse acreditar que a fonte de seu sofrimento é o excesso de reflexão: “Ele coloca à sua frente uma imagem do jovem que ele gostaria de ser, e ao invés de contentar com quem é, seu esforço de existência se concentra em mirar nessa fantasia”, disse. 

Quanto a suas influências, Galera destacou a do norte-americano Cormac McCarthy, cuja obra terminou de ler enquanto escrevia Barba; já Ferrari citou, de maneira geral, as literaturas russa e norte-americana e o francês Albert Camus, do ponto de vista da moralidade. 

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