noticias

a festa

Como ser político sem ser panfletário

Nos últimos dias, o público da Flip pôde ouvir ou ler com frequência uma afirmação sobre a obra de Graciliano Ramos, o homenageado desta edição: a de que ela é sempre política, mas nunca panfletária. Na mesa que abriu a programação da Flip neste domingo, acrescentou-se a essa afirmação uma pergunta: Como ele consegue fazer isso?

Para responder essa questão, o público contou com três especialistas na obra do escritor alagoano: Wander Melo Miranda (diretor da Editora UFMG e autor de livros como Nações Literárias), Lourival Holanda (professor da UFPE e autor de Sob o Signo do Silêncio) e Edwin Torralbo Gimenez (responsável pelo Arquivo Graciliano Ramos do Instituto de Estudos Brasileiros da USP).

Quem deu o pontapé inicial foi Miranda, que se valeu de uma frase do próprio Graciliano, extraído de Memórias do Cárcere: “Liberdade completa ninguém desfruta: começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas com a Delegacia de Ordem Política e Social, mas, nos estreitos limites a que nos coagem a gramática e a lei, ainda nos podemos mexer”. Para Wander, é nesse espaço exíguo entre a gramática e a lei que Graciliano parte em busca da interlocução com o outro, que tanto pode ser um latifundiário assassino, como Paulo Honório (protagonista de São Bernardo), como a cachorra Baleia, de Vidas Secas.

Também importante: ele busca falar com o outro, e não no lugar do outro. Isso ocorre, por exemplo, quando Graciliano adota o discurso indireto livre em Vidas Secas, o que permite que fique, ao mesmo tempo, perto e distante dos personagens. “Evidentemente, Graciliano é de uma classe social diferente, então ele não assume o lugar do outro, da voz do excluído. Ele tem a consciência de que há uma distância muito grande entre a nossa fala e a dos excluídos, e resolve isso literariamente”, disse Miranda.

O posicionamento crítico em relação à linguagem também dá o tom político da obra do alagoano, segundo Holanda. “Ele faz, sobretudo, a crítica da linguagem. É fundamental que se pense Graciliano porque ele está na encruzilhada desses discursos dados. Tudo que é ‘evidente’ é uma forma de enceguecer”, disse o pesquisador.

O argumento de Holanda fica mais claro com um exemplo dado por Gimenez, citando um o trecho abaixo, presente no livro “Infância”, no qual Graciliano narra seus primeiros contatos com a palavra escrita. 

“Meu pai tentou avivar-me a curiosidade valorizando com energia as linhas mal impressas, falhadas, antipáticas. Afirmou que as pessoas familiarizadas com elas dispunham de armas terríveis. Isto me pareceu absurdo: os traços insignificantes não tinham feição perigosa de armas. Ouvi os louvores, incrédulo. Aí meu pai me perguntou se eu não desejava inteirar-me daquelas maravilhas, tornar-me um sujeito sabido como Padre João Inácio e o advogado Bento Américo. Respondi que não.”

“A palavra se insinua como instrumento de poder – o poder da igreja, na figura do padre, e da lei, na figura do advogado”, comentou Gimenez. Curiosamente, nos três romances de Graciliano que são narrados em primeira pessoa – São BernardoAngústia e Caetés – os narradores questionam o tempo todo o que estão escrevendo, como observou Miranda, o lado ético de seus textos. “Todo ato de escrita ser acompanhado dessa reflexão no momento em que estamos fazendo.”

Essa preocupação com as armadilhas da linguagem também está relacionada à concisão encontrada nos textos de Graciliano. “No momento em que Graciliano escreve, a cultura brasileira é excessivamente palavrosa. Ele faz um trabalho de desbaste”, afirmou Holanda. “Precisamos ter outro rigor com a linguagem, ou ela se perverte.”

Tudo isso permanece atual, mas isso não significa que, para fazer jus a Graciliano, seja preciso tentar escrever hoje como ele escreveu. “Isso seria uma fraude”, disse Holanda. “Mas se a pessoa escrever com rigor de linguagem, for absolutamente ela mesma, Graciliano estará presente. Isso pode estar em um blog ou em um manifesto político. É impossível separar literatura de política. A diferença é que, enquanto o partido impõe um sonho, a literatura não traz um modelo de sociedade. Ela te deixa criticamente aberto e inventivo para a possibilidade de renovação do real.”

share
Logo da Casa Azul