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Autores defendem importância da cultura popular

Desafiado certa vez a explicar o que era a vida, o repentista paraibano Pinto de Monteiro disparou este verso: “Eu só comparo essa vida à curva da letra ‘s’. Tem uma ponta que sobe, tem outra ponta que desse. E a volta que dá no meio nem todo mundo conhece”.


Foi declamando esse repente – visual, simples e ao mesmo tempo profundo – que o escritor Braulio Tavares sintetizou a importância da cultura popular, relacionando-a à literatura. Nascido em Campina Grande e radicado no Rio de Janeiro, o autor abriu hoje cedo as atividades na Casa da Cultura de Paraty, dentro da programação da FlipZona, ao lado do também escritor e ilustrador Ricardo Azevedo.

Fortemente influenciados pelo exemplo dos pais, leitores assíduos e apaixonados por literatura, os autores compartilharam memórias sobre a infância e contaram como a cultura popular teve importância na formação de ambos. 


“A ideia do livro didático é que 100% das pessoas tenham uma única compreensão. A poesia não. Vem e fala, como na música de Caetano Veloso, ‘tudo certo como dois e dois são cinco’. Literatura tem coisas que podem ser tiradas para a vida, não são teorias nem liçõezinhas”, disse Ricardo Azevedo, autor de Contos de enganar a morte. “O que me fascina na cultura popular é a maneira como as pessoas definem de forma tão rápida e tão genial assuntos extremamente complexos.”


Filho de pai jornalista, poeta e boêmio, Braulio foi criado numa casa onde eram comuns os saraus e cantorias que enchiam o terraço e viravam festas. “Ninguém é obrigado a gostar de ler, mas todo mundo pode gostar de ler se receber os estímulos adequados”, disse o autor de A invenção do mundo pelo deus curumim e também compositor de canções interpretadas por Lenine. 


Ao mencionar um episódio narrado por Ariano Suassuna, sobre a habilidade do repentista, Braulio arrancou risos da plateia. “Ele estava vendo uma cantoria de Dimas Batista e disse: ‘Rapaz, é uma coisa maravilhosa, vocês fazem isso na hora. Eu fico semanas para terminar um verso’. Quando pegou a viola, Dimas cantou assim: ‘Eu muito admiro o poeta de praça que passa dois meses fazendo um quarteto. No fim de um ano é que acaba um soneto e, quando termina, ainda fica sem graça. Com tinta e papel o esboço ele traça, contando nos dedos pra metrificar. Que noites de sono ele perde a pensar, para apresentar tão minguado produto. Que desses eu faço dois, três num minuto, cantando galope na beira do mar”.

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