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A necessidade da derrota

E o receio do escritor Paulo Scott não se concretizou. Como dedurou o mediador da terceira mesa da Flip, João Gabriel de Lima, o autor gaúcho estava com medo de que sua mesa com o pernambucano José Luiz Passos “flopasse”, fosse um fracasso de público. Em vez disso, encontrou um auditório lotado por pessoas interessadas em ouvi-los falar justamente sobre... fracasso.


Batizada de Formas da derrota, a mesa começou com uma leitura de O sonâmbulo amador, de Passos. O livro conta a história de Jurandir, um pequeno burocrata da indústria têxtil pernambucana que é internado temporariamente numa clinica psiquiátrica na Olinda dos anos 60. “Meu interesse era contar a história de alguém para quem o desencantamento profundo em relação à vida tivesse certa graça, certa leveza”, comentou o autor, que é professor na Universidade da Califórnia, onde dirigiu, entre 2008 e 2011, o Centro de Estudos Brasileiros.


Em seguida, foi a vez de Scott ler o início de seu novo livro, Ithaca Road, que narra a história da Narelle, uma neozelandesa que viaja à Austrália para ajudar o irmão e se vê às voltas com um complicado processo de falência do bar dele.


A certa altura da conversa, Scott resolveu compartilhar também um trecho de outro de seus romances, Habitante irreal, sobre o relacionamento entre um estudante de direito e uma índia, Maína. “Não entrarei na história da Flip pelo talento, mas pelo menos por ser aquele que teve a cara de pau de ler o final de seu romance aqui”, brincou Scott, abrindo a última página do livro. E o que leu casava exatamente com o que vinha sendo discutido até então: o desejo de “salvar o mundo”, o papel da arte, engajamento, frustração e – por que não? – dor.


“Tento escrever a partir do que me incomoda em mim e nos outros. Tanto Ithaca Road como Habitante irreal têm esse espelho”, comentou Scott. 


Em Ithaca Road, uma das questões levantadas é a dos adultos que não conseguem amadurecer. “Sempre me impressiona quando paro para comparar os adultos de hoje com os adultos da geração de meus pais. Hoje, tem pessoas de 30, 40 anos, se vestindo como um adolescente débil-mental. ‘Tenho 50 e moro com meus pais’. Pô... Beleza. Mas isso é estranho, caramba”, brincou. Ao fim do livro, nem o narrador nem o leitor saberão quais são as questões que a personagem buscava entender. “E Narelle diz: foda-se. Porque o mundo hoje é um grande foda-se, né? E isso é meio preocupante.”


Já em Habitante Irreal, o que o espelho reflete é a decepção com um projeto político. “Minha geração, que militou no processo de redemocratização, jurou que não cometeria erros, que construiria um futuro. Nessa perspectiva, minha geração falhou, como a anterior falhou. Mas falhar e cair em derrota pode ser uma vitória também. Todas as gerações precisam suportar o sonho que as decepciona. E é preciso assumir a impossibilidade de realizá-lo e suportar, dentro dessa impossibilidade, a derrota, que não autoriza a jogar tudo fora.”


Passos levantou a responsabilidade política dos escritores ao lidar com esse material. “O convívio continuado com esse plano da imaginação dá ao leitor a impressão de testemunhar experiências com pessoas que são e não são como nós somos. Então, claro que há uma responsabilidade quando você decide apresentar a vida humana em desenvolvimento. Você chama a atenção do leitor para circunstâncias humanas que são extremamente complexas”, comentou. “Na obra de Graciliano Ramos, onde o limite do sertanejo e o do proprietário são testados, reiterados, condensados, você tem uma maneira consequente de imaginar comunidades, suas derrotas, ruínas e possibilidades de redenção.”


Mas por que as gerações precisam sustentar o sonho falido das que a precederam?, pergunta alguém da plateia. É José Luiz Passos quem responde: “Escrevo porque quero contar histórias sobre pessoas que arcam com consequências e decisões que elas não tomaram. Que decisões são essas? No meu caso, tenho origem no Nordeste agrário, e meu Nordeste vai muito bem para poucas pessoas e muito mal para a maioria. Essas decisões foram tomadas la atrás, e até hoje eu lido com isso.”

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