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A ignorância e o amadorismo como bases do ensaio

“Estou há 35 anos fazendo dever de casa.” Sem ignorar o que há de chato nas tarefas escolares, o inglês Geoff Dyer definiu assim sua atividade como um dos mais importantes ensaístas contemporâneos, autor de livros como Todo esse jazz. “O ensaio é uma coisa muito básica, que fazemos desde a escola, quando tomamos nota nas aulas, estudamos e depois precisamos escrever algumas páginas sintetizando tudo que aprendemos”, disse. “Para mim, escrever ensaios é uma forma de ter disciplina para continuar a me instruir e aprender sobre coisas que me interessam.” Tal tentativa de definição da escrita ensaística deu início à mesa A arte do ensaio, em que

Dyer conversou com o norte-americano John Jeremiah Sullivan, autor de Pulphead, sob mediação de Paulo Roberto Pires. 

Pires, que dirige a revista Serrote, dedicada ao gênero, aproximou-se de uma tentativa de definição dessa arte híbrida, entre a criação literária e a reflexão teórica, mencionando que seus textos partem de uma curiosidade poderosa sobre os mais variados assuntos, que procuram levantar questionamentos. No Brasil, insistiu, ensaio costuma ser associado a textos mais formais e acadêmicos, mas em sua origem ele está entre o que produz um jornalista tradicional e a leitura de um especialista. 


Mas, diferente de uma especialização, afirmaram os dois debatedores, o que guia o ensaio é o amadorismo. Por isso, temas como fotografia, Michael Jackson e a experiência de ser filho único são abarcados pelos escritores, que apontam para lugares que não conhecem e a partir daí desenvolvem seus ensaios. O próprio formato do texto, seu estilo, descobre-se de acordo com o tema, segundo eles; ainda que seja inevitável uma voz autoral, cada assunto acaba pedindo uma diferente maneira de abordagem. 


Uma característica que os atrai e que tentam reproduzir em sua obra é que o leitor tenha a sensação de estar descobrindo o tema enquanto o próprio escritor aprende e discorre sobre ele. “Todo ensaio envolve alguma jornada, de um estado para outro. Os melhores ensaios são aqueles em que se vai da ignorância para o conhecimento – uma viagem epistemológica”, disse Dyer, que citou Susan Sontag como grande ensaísta. Sullivan complementou: “Há algo de socrático nisso, é como se você se sentasse com seu leitor para pensar sobre algum problema”. 


Depois de cada um ler um trecho de um ensaio, os autores contaram brevemente as condições de produção desses textos. Dyer, que falara sobre o saxofonista Lester Young, disse ter passado um tempo em Nova York, indo a shows todas as noites e fazendo uso de uma inovação tecnológica na época, fim dos anos 1980: o walkman, que permitia que a música estivesse dentro de sua cabeça enquanto perambulava pelos lugares em que seus personagens haviam vivido.


Sullivan, que lera trecho de seu ensaio sobre Michael Jackson, disse ter dispensado ao pop star uma atenção que não havia encontrado antes em sua pesquisa: tentou enxergá-lo para além do sucesso. “Quando cheguei ao momento de falar sobre sua fama, tentei pensar em como essa experiência afeta alguém. Não é que ele tivesse nascido sabendo que seria famoso, como um príncipe. Ninguém perguntou se ele queria ser famoso. Quando ele tomou consciência de quem era, já era famoso.”

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