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A dor e a delícia de traduzir Flaubert

Lydia Davis traduziu Flaubert do francês para a língua inglesa; Samuel Titan Jr., do francês para o português. Foi sobre os aprendizados e as dificuldades para verter obras do consagrado autor francês do século 19 que a escritora norte-americana e o crítico e professor de teoria literária falaram no penúltimo encontro de hoje na Casa da Cultura de Paraty. 


Tradutora da versão mais recente, em inglês, de Madame Bovary, Lydia Davis leu um trecho da obra. Observou a seguir, quão extraordiário são os detalhes narrados pelo autor, bem como a competência para deslocar narrativas. “Aprendi com ele como pode ser sutil a transição do narrador para a cabeça de um persoangem e, a seguir, para a de outro. Flaubert faz isso dentro de maneira muito habilidosa”, disse ela. 


Samuel Titan Jr. também leu uma passagem de Um coração simples, um dos contos do livro traduzido por ele e o escritor Milton Hatoum, e comentou como ficou surpreso quando leu Flaubert em francês pela primeira. “Há uma linhagem de críticos literários do seculo 19 que diziam que ele não conhecia francês, não sabia usar os tempos verbais com correção e que, por isso, tinha de ser expulso do cenário literário”, diz. “Na verdade, para mim e o Milton, a maior dificuldade era resistir ao impulso quando a mão queria tornar mais elegante o que era áspero no original francês. Tem a ver com esse paradoxo de um escritor que tem estilo absolutamente inconfundível e que não escreve bem no sentido gramatical.”


Traduzir Flaubert trouxe ao professor um aprendizado importante: o treino do olhar para o detalhe significativo. Ilustrou a observação com um exemplo pinçado do próprio conto. Nele, Flaubert descreve uma clarabóia que só volta a aparecer no fim do texto e é, segundo Titan Jr., “absolutamente definitiva”. 


Cometer imprecisões é outro risco para os tradutores, em especial quando a obra em questão é do escritor francês. “Há palavras que podem ter conotação moral na língua de chegada”, comenta Titan Jr.


Lydia Davis complementa mencionando outro exemplo, este pinçado de Madame Bovary. “Quando Ema vai a uma festa na casa de nobres, há uma descrição das mulheres sentadas contra a parede, com luvas brancas, segurando pequenos frascos. Em várias traduções, diz-se que os frascos são vidros de perfume, o que é um grande erro. Fui examinar os esboços, e Flaubert referia-se a frascos de vinagre,, usado para reavivar alguém que, por ventura, houvesse desmaiado.”


“Esse tipo de dificuldade está à espreita do tradutor a cada parágrafo”, concluiu o crítico brasileiro.

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