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A arte do tropeço em Kafka e Baudelaire

Ao chegar à Tenda dos Autores para a mesa “A vida moderna em Kafka e Baudelaire”, na tarde desta sexta (5), o público encontrou sobre cada cadeira um folheto com textos dos dois escritores. O primeiro, A Perda da Auréola, traz um diálogo de Baudelaire em que um personagem conta ao outro como perdeu sua auréola, ao desviar bruscamente de um carro para não ser atropelado. No outro, um rei à beira da morte encarrega um súdito de entregar uma mensagem – mas este personagem, como tantos outros de Kafka, se vê diante de obstáculos infinitos, que tornam sua tarefa impossível.


Essa pequena amostra da obra de ambos já era um ponto de partida para a fala da professora de filosofia Jeanne-Marie Gagnebin, nascida na Suíça e radicada no Brasil desde 1978. Considerada uma referência no país no estudo das ideias do filósofo alemão Walter Benjamin, ela se apresentou ao lado do italiano Roberto Calasso, editor da consagrada Adelphi e autor de livros como K, sobre Kafka, Ka, sobre mitologia indiana, e A Folie Baudelaire.


Jeanne-Marie destacou nos dois textos selecionados alguns elementos que mostravam por que Kafka e Baudelaire representam uma virada na nossa concepção da modernidade. Um deles é a superação da ideia de que um caminho reto, ainda que lento, poderia nos levar a um alvo certeiro: o progresso. Em vez disso, há algo a que a pesquisadora se refere como “tropeço”. 


“Em Kafka, é como se ele não soubesse nos transmitir uma mensagem, e nos falasse sobre essa dificuldade de transmissão”, comentou Jeanne-Marie. “Esses são textos que nos mostram o quanto os desvios são importantes (talvez mais que os caminhos certos) até o lugar que visamos desde o início. Você não sabe aonde vai, pode tropeçar, pode nunca chegar; no entanto, vai.”


Já Calasso, depois de ler um trecho de Folie Baudelaire, buscou a semelhança entre os dois escritores por outro caminho. “Eles aparentemente não têm nada em comum, mas de perto percebemos que têm uma característica muito rara e essencial. Se você lê Baudelaire, é inevitável se sentir imediatamente envolvido, aquilo te diz respeito. Algo semelhante aparece em Kafka, como um vórtice do qual você não consegue sair antes de terminar o livro. Eles apenas têm isso em comum com Nietzsche. Você pode odiá-lo ou amá-lo, mas se sentirá imediatamente atingido.”


A figura do narrador nos textos de Kafka e Baudelaire também forneceu aos convidados material para outras análises. Segundo Jeanne-Marie, é fácil encontrar nos textos de ambos, assim como nos de Proust, vários disfarces por meio dos quais o narrador pode ser um anônimo, quase uma máscara. “O ‘eu’ de Proust é uma palavra que diz respeito a todos nós e não identifica nada específico. É um processo de desidentificação na escrita que permite, ao mesmo tempo, escrever.”


O comentário remeteu Calasso a um período em que deu aula em Oxford, onde estão guardados manuscritos de Kafka. “Na capa da edição italiana de K, há uma ampliação de um ‘K’ do manuscrito de O Castelo sobreposta a um Ich, um eu apagado. Isso certamente diz respeito ao que Jeanne-Marie disse: esse ‘K’ que vai além de qualquer ‘eu’.”


Foi por meio desses manuscritos, aliás, que Calasso diz ter chegado a outra dimensão de Kafka. “Assim como Baudelaire, ele era dotado de uma antena metafísica”, comentou o editor, mencionando em seguida aforismos escritos em 1917 pelo autor de A Metamorfose. “Nesses aforismos, ele fala umas cinco ou seis vezes de paraíso, e esses são os mais difíceis de entender. O mais difícil é uma frase em que ele diz que nós sempre estamos no paraíso, mas uma conjunção cósmica nos impede de perceber isso. E aí entra a culpa. A culpa não veio, como a Bíblia diz, por se ter comido a maçã da árvore do conhecimento. A verdadeira culpa é por não se ter comido o fruto da árvore da vida. Se quisermos entender os romances, precisamos partir daí, da sutileza de Kafka. É o pensamento sobre o que é, para além do moderno, do antigo, do total ou do não-total. É algo que tenta tocar o que é.”


Jeanne-Marie, por sua vez, discorda da corrente que identifica em Kafka elementos metafísicos ou religiosos. “Acho que tem algo em Kafka que resiste à ideia de comunidade religiosa no sentido de que ‘estamos são e salvos juntos’. Mas ele pensa no paraíso, como Calasso citou, o que acho maravilhoso e também poético. E vai dizer que fomos expulsos do paraíso e não voltamos por causa de nossa impaciência. Pela pressa que nos condena tantas vezes a dizer e fazer besteiras. Essa ênfase na paciência, que também é benjaminiana, talvez seja religiosa, porque Deus precisa ter paciência conosco.”

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