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Zuenir na FlipZona

Foi tudo por acaso: o que ele queria mesmo era ser professor e, por isso, saiu de sua cidade natal, Além Paraíba, em Minas Gerais, e foi estudar Letras na Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde foi aluno de Manuel Bandeira. Acabou virando jornalista por conta do primeiro emprego, o de arquivista na Tribuna da Imprensa. Um dia, saíram procurando alguém que pudesse escrever um perfil de Albert Camus. “Ora, eu tinha lido tudo de Camus, sabia tudo sobre ele, escrevera artigos a respeito para a faculdade”, recordou Zuenir Ventura em sua conversa de hoje com Verônica Lessa, agente literária e uma das coordenadoras da FlipZona, o evento criado pela Casa Azul há três anos para os jovens e adolescentes de Paraty. 


O perfil de Camus garantiu-lhe o primeiro emprego de jornalista, já ganhando o triplo do que ganhava como arquivista. Hoje, aos 81 anos, o jornalista também virou escritor consagrado – será entrevistado sábado na Tenda dos Autores sobre seu último livro (e segundo romance), Sagrada família. Mas a FlipZona saiu na frente: com o pequeno auditório lotado, Zuenir contou histórias do professor (afinal, conseguiu ser também professor), do repórter e do escritor.


Também contou detalhes de suas relações algo conturbadas com a internet. Aprende quase tudo com a neta Alice, que lhe ensina no momento a lidar com o iPad e com o Skype, e confessa que tem muitos problemas com a tecnologia: “A internet até já me matou!” De fato, anos atrás, quando trocou de telefone, muita gente ligava para o número antigo. A nova dona do número, cansada de atender telefonemas para “o tal Zuenir”, simplesmente passou a informar às pessoas que ele havia morrido. “Como eu estava num evento fechado à imprensa e ninguém conseguia me encontrar, fiquei morto por três horas”, recorda.


Revelou também que não gosta de escrever, embora ainda escreva duas colunas semanais para O Globo. “Escrevo porque não sei jogar futebol, mas meu grande barato é ler”, disse. A carreira de escritor veio depois, igualmente à sua revelia: “Escrevi o primeiro livro porque minha mulher mandou...”. O primeiro livro foi 1968, o ano que não terminou, que já teve 38 edições desde 1988 e foi seguido por vários outros. Com Cidade partida (1994), livro-reportagem que descreve o que chama de apartheid social do Rio de Janeiro, ganhou o Prêmio Jabuti. Para escrevê-lo, passou dez meses numa favela, em contato direto com traficantes e outros bandidos, que, na verdade, como disse, compõem uma porcentagem infinitesimal da população favelada. Outro livro-reportagem foi Chico Mendes, crime e castigo (2003) e cinco anos depois retomou sua obra mais conhecida com 1968, o que fizemos de nós


Agora, Zuenir lança na Flip seu Sagrada família, que levou dez anos para escrever e que define como um livro de memórias próprias, de memórias de outrem e de memórias inventadas. Citou o poeta Manoel de Barros, que escolheu para a epígrafe: “Só 10% é mentira; o resto é invenção”. No final do encontro com os jovens de Paraty, constatou que ninguém ali queria ser jornalista quando crescesse. Mesmo assim, revelou dois segredos do bom jornalista: a curiosidade intelectual e “saber quem sabe”.

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