noticias

festa

Um escritor no meio da arena

A conferência individual do escritor catalão Enrique Vila-Matas, na noite de sábado, fez jus ao estilo solto, irônico e fragmentário de seu mais recente romance, Ar de Dylan, que propõe o caos como obra de arte. Seu protagonista é um escritor de meia-idade que comparece a uma universidade suíça para tomar parte em congresso internacional sobre o fracasso. Villa-Matas, ao contrário, é um escritor de sucesso, traduzido em mais de três dezenas de países e celebrado como autor de obras cult que mesclam textos de diferentes gêneros, sem levar em conta os supostos limites entre a ficção e a realidade. 


Em Paraty, ele brindou o público com a leitura de um texto dividido em 23 tópicos, cujos temas cruzados misturam memórias, referências a outros autores, um ideário estético, reflexões sobre o colapso da literatura e comentários sobre a vida contemporânea. Não dá para chamar de palestra, no sentido usual, estruturada como um prédio. Mas, no fim da viagem, saímos da Tenda dos Autores com a impressão de que conhecemos Vila-Matas desde sempre. E que tipos como ele são salutares perante a mesmice do mundo.


A primeira parte da leitura foi uma das mais prolixas, mas também instigante. Não fica muito claro se é fato real ou inventado. Nela, Vila-Matas conta um episódio ocorrido em 1953 na localidade balneária espanhola de Cadaqués, na Costa Brava, Catalunha, onde sua família veraneava. Ali, aos cinco anos, ele travou amizade com um garoto que tinha o dobro de sua idade, e do qual sofreu certa influência. Conforme descobriria mais tarde, tratava-se de Antonio Tabucchi, falecido em março deste ano. Durante a leitura do texto, Vila-Matas fez uma série de referências a títulos de obras do escritor italiano, como também a locais onde ambientou suas histórias – é o caso, por exemplo, do Café Sport, na Ilha de Faial, Açores, famoso como ponto de encontro de navegadores. Fica evidente, por essas alusões, o quanto Tabucchi deve ter sido importante no plano literário (e também pessoal, talvez, pois conviveram mais tarde) para Vila-Matas, para o qual o conto Mulher de Porto Pim foi uma espécie de revelação.


Em outro segmento da palestra, Vila-Matas fez uma curiosa retrospectiva da posição social dos escritores em diferentes épocas. Em tempos remotos, eles eram seres reclusos no alto das montanhas, mas respeitáveis porque, supostamente, tinham certa dimensão sagrada. Depois desceram aos bosques e por fim às cidades, onde proliferaram, tornando-se mais numerosos que os próprios leitores. “Então o público, para eles, tornou-se uma alucinação”, concluiu Vila-Matas. “E isso aconteceu no momento em que os escritores, tendo chegado à cidade, entraram na piscina, isto é, no mercado.” Sua crítica se dirige contra a ânsia e o excesso de visibilidade por parte dos autores atuais, em contraste com os antigos, que não mostravam o rosto mas, em compensação, faziam ouvir sua voz. “Hoje, o texto em prosa é insignificante”, acredita. “No que se refere à literatura, está tudo acabado.”


Esse panorama sombrio, desalentador, fez Vila-Matas ter de lidar sempre com impulsos contrários: querer parar de escrever e, apesar disso, continuar escrevendo “para ser fiel a mim mesmo”. Tal é a importância da literatura em sua vida, que ele diz ter ficado bastante nervoso nas semanas que precederam o lançamento de Ar de Dylan, antevendo o impacto que o livro iria causar na Espanha. Nessa época, por causa do medo, sua barba até crescia mais rápido. E isso, como acontece com o toureiro (contou-lhe um amigo que atua no ramo) no dia em que tem de enfrentar o touro.

share
Logo da Casa Azul