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Show de abertura Flip 2012

Um espetáculo musical em uma festa literária vai sempre além dos limites do show. Foi o que ocorreu ontem, na Tenda do Telão, que teve dois espetáculos de alto calibre: o grupo de músicos, cantores e dançarinos da Ciranda de Tarituba, uma tradicional manifestação cultural da região de Paraty; e o cantor pernambucano Lenine. Ambos arrancaram aplausos entusiasmados e gritinhos de alegria de grupos diferentes do público de dentro e sobretudo de fora da tenda. Mas foi Lenine que definiu o parentesco entre a literatura e a música: “Um disco é como uma coletânea de contos ou de crônicas. É isso que estou fazendo aqui. Estou mostrando a vocês o meu romance”.


Curiosamente, entre o romance de Lenine e o da Ciranda havia uma inegável sintonia poética, ambos descrevendo o Brasil que os rodeia. Entre o "Cabôco véio da Ciranda", que “cantava na Ilha Grande e se ouvia em Tarituba”, e "Chão", que “faz uma ladeira quando quer descer” e “vira cordilheira quando quer crescer”, canção que dá título ao novo álbum de Lenine, era possível reconhecer semelhanças para além da geografia brasileira.


Ambos bebem na mesma fonte – rica, diversa – da cultura popular brasileira. “Veja como é bonito o barulho dos tamanquinhos”, dizia a letra de uma das cirandas entoadas pelo grupo local e dançada com tamancos. O mesmo som de madeira sobre madeira podia ser ouvido, claramente, na canção de Lenine que diz: “Tá relampeando, onde está Neném? Tá vendendo drops no sinal pra alguém”. A única diferença é que o som dos tamancos da Ciranda era dos calçados mesmo; e o dos tamancos de Lenine era eletrônico. Um dos dois músicos que o acompanharam tinha ao lado uma imensa parafernália de caixas metálicas com luzes piscando e um emaranhado de fios – e com ela produzia sons que variavam dos singelos tamancos a ensurdecedoras turbinas de Boeing e irritantes chaleiras fervendo. Vez por outra, para alívio do público mais velho, Lenine ficou só no palco com sua guitarra e, quase a capela, cantou algumas de suas mais belas canções. 


Foi assim o show de abertura da Flip 2012, celebrando os dez anos do evento com dois romances diversos. E brasileiros.

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