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Sexo e morte inspiram reflexões e comédia

O brasileiro (gaúcho) Fabricio Carpinejar e a escocesa Jackie Kay fizeram a mesa mais bem humorada e agitada da Flip. Em tornos dos temas sexo e morte, os dois conduziram uma conversa animada e performática que empurrou um pouco além as possibilidades da literatura. Se ambos concordam em que a obra se faz com o complexo que se forma nas experiências, leituras e observações do autor, os dois consolidaram a suposição de que a literatura também pode condicionar a própria vida de quem a produz.


Kay escolheu ser solene e emocionada em sua leitura inicial, na mesa mediada pelo crítico João Paulo Cuenca. Carpinejar preferiu aquilo que na linguagem popular é chamado de esculacho. E não é que a composição funcionou? Entre os três, quem parecia menos à vontade era o mediador. O encontro, intitulado Vidas em verso, se desenrolou a partir daí quase no tom daquelas comédias ao vivo que costumam terminar em queixas contra o humorista.


Carpinejar, apresentado por Cuenca como um autor “performático e irreverente”, optou por fazer de si mesmo personagem. “A maravilha foi ter nascido feio, porque o feio é um dom, o feio é inesquecível, enquanto o bonito tem que se cuidar a vida inteira”, afirmou, conquistando risadas e a empatia da plateia. Em meio à seriedade e circunspecção de alguns dos autores que o precederam na tenda principal, aquilo soou como a quebra de um protocolo e abertura de um novo estilo no último dia da festa literária.


Mais adiante, falando sobre a natureza feminina, tratou do tema do orgasmo, chegando a encenar um orgasmo simulado, à sua imaginação. Não poderia ter sido mais cômico, ao mesmo tempo em que acrescentava um elemento interativo com sua parceira de debate. Jackie Kay não se fez de rogada: “Não entendo de fingir orgasmos. Para mim, é como uma língua estrangeira”, acrescentou.

A mão do mediador pesou na mudança de tema, e do sexo se passou à morte, outro tema que atravessa as obras dos dois escritores, mas ainda assim o tom não baixou. Kay observou que a vida “é definida mais pelo que perdemos do que por qualquer outra coisa. Somos definidos por silêncios e ausências, pelas perdas, mas tento abordar isso de maneira bem-humorada, porque a tragédia e o humor ficam muito próximos”, ponderou. À saída, muitos participantes se mostravam emocionados, e na fila dos autógrafos havia gente às lágrimas.


De alguma forma, a postura cômica de Carpinejar completou-se com o estilo comedido de Jackie Kay. Brincando consigo mesmo ao misturar bullying com calvície e feiura, ele conseguiu colocar em relevo o que sua interlocutora tinha a dizer. Mas ela também teve seu momento humorístico ao relatar o encontro com o pai biológico, que andou procurando e acabou encontrando há nove anos, aos 42, quando ele soube que era homossexual: “Ele me perguntou se eu era o homem da relação. Coisa das menos paternalistas que já vi”, contou. 


Foi dela a melhor interpretação do clima que predominou no domingo, ao fazer um jogo de palavras entre o nome da cidade e poesia (poetry), em inglês. Soou como “até no nome, Paraty é a cidade da poesia”, disse.


Nada mal para uma manhã de domingo que ameaçava ceder à frente fria depois de uma semana de sol e temperaturas amenas. Mas nem a ameaça de uma virada no tempo resistiu à mistura de sexo e morte logo pela manhã. E o dia transcorreu iluminado, e a Flip seguiria até a noite, com a promessa de uma festança na tenda armada na Praia do Porto.

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