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Prismático Drummond

Dos cem prismas de Drummond, quantos há que não presumimos? Eucanaã Ferraz (à esq.) e Carlito Azevedo (no centro) presumem muitos e, na mesa desta tarde, exploraram vários deles, instados pelo moderador Flávio Moura, que também foi cocurador da homenagem a Drummond, e saudados animadamente por um público sedento de poesia. Eucanaã, que é poeta e professor de Literatura Brasileira na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), leu e analisou três belos poemas do homenageado – “Não se mate”, “O quarto em desordem” e “Os materiais da vida” –, mostrando claramente o que chama de “várias dicções” de Drummond. O poeta Carlito brindou o mundo com um seu poema inédito que celebra Drummond, depois de três anos sem escrever poesia.

Os dois foram precedidos por mais um poeta, o consagrado Armando Freitas Filho, em vídeo – tão intenso quanto se estivesse ali, ao lado de cada um, explicando sua relação pessoal e literária com Drummond. “Se uma máquina de escrever falasse, teria a voz de Drummond: seca e surda”, disse Armando, lembrando do presente de seu pai quando fez quinze anos – um disco, com Manuel Bandeira no lado A e Carlos Drummond de Andrade no lado B. Não é à toa que era o lado B, explicou, porque Drummond vai mais fundo, está do lado de lá, do outro lado: “Escrevia com o próprio fígado, pegava o ser humano por dentro, como se fosse uma cunha. Você pode até esquecer as palavras do verso, mas não esquece o sentimento que o verso trouxe”. 

Nos anos 1960, Armando entregou o manuscrito de seu primeiro livro a Bandeira e foi aconselhado por este a encaminhar seus poemas a Drummond. Nasceu daí uma rica relação pessoal, de mestre e pupilo – “ele não foi uma influência, foi uma possessão”. Essa relação pessoal só terminaria com a morte de Drummond. “Fui o primeiro a chegar ao velório e até corrigi um erro ortográfico que o funcionário cometera na placa que afixam à porta da sala onde está o morto – faltava um M no Drummond”, lembrou. “Hélio Pellegrino e eu entramos juntos na sala, abraçados, Hélio tremendo muito (ou era eu?), quando fomos abordados pelo jovem repórter Arthur Dapieve, perguntando qual era o significado daquela morte. Hélio respondeu: ‘Eu não me entenderia como pessoa sem a poesia dele’.”

Muitos brasileiros não se entenderiam como pessoas sem o autor de “Tarde de maio”, dito por Carlito, tão visceralmente diferente de “Os materiais da vida”, um dos três poemas selecionados por Eucanaã. Com tantos Drummonds, como adjetivar alguém de “drummondiano”? Carlito acha que drummondiano é “quem está à altura da queda”. Carlito acha que não é possível usar o adjetivo: “São muitos drummonds. Qual é o Drummond de Gullar? Qual o de João Cabral?”

Da impronunciável pergunta que inicia “Os materiais da vida” – “Drls?” – à singeleza de “o amor é isso, um dia beija, um dia não beija”, de “Não se mate”, esse multifacetado Drummond pairou por quase duas horas na Tenda dos Autores. Antes de entrar em cena, como revelou Eucanaã, Carlito disse que preferia apenas ler Drummond no palco e ir embora, sem fazer nenhum comentário. Muitos comentários foram feitos, mas apenas ocuparam os interstícios, entre os versos do poeta maior.

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