noticias

festa

O otimista inquieto e o poeta pagão

Os dois são filhos “desse mundo mediterrâneo, do pão, do azeite e do vinho, que misturou judeus, cristãos e muçulmanos” por pelo menos nove séculos, como bem lembrou a moderadora Alexandra Lucas Coelho, jornalista portuguesa que foi correspondente no Oriente Médio por muitos anos. Amin Maalouf, o prestigiado escritor franco-libanês que foi admitido na Academia Francesa de Letras em 2011, cresceu católico numa Beirute cosmopolita e diversa, filho de um poeta prestigiado, que se gabava de saber de cor os cem mil versos da poesia árabe clássica. Adonis, nascido num vilarejo sírio, cresceu ouvindo os versos do Corão, que seu pai declamava religiosamente todos os dias, mas logo rompeu com essa tradição e se voltou para a poesia árabe pré-islâmica, pagã, e para a literatura universal. Aos 26 anos, mudou-se justamente para o Líbano (onde conheceu e admirou o pai de Amin) e depois para a França, onde vive hoje. Sua ruptura com a tradição islâmica foi tão radical que abandonou até seu nome – Ali Ahmad Said Esber – e adotou o nome de um deus fenício, Adonis, conhecido na Síria como Tamuz.

Os dois escritores têm um pé em cada canoa: no Ocidente e no Oriente, na literatura e na militância política e social, cada um à sua maneira. Amin, por exemplo, não aprova o epíteto “Primavera Árabe”: “Temos as quatro estações do ano num só dia!” Mas se define como “um otimista inquieto” e, apesar dos percalços da tal primavera, já surrupiada das mãos dos jovens que a iniciaram, prefere confiar. “Notem que a Revolução Francesa ocorreu em 1789, mas a República só se estabilizou quase cem anos depois”, observou. “O importante, agora, é criar nas pessoas o hábito de votar.” A Beirute em que cresceu já não existe. 

Já Adonis, quando pediram sua opinião sobre Obama, primeiro recomendou que a pergunta fosse dirigida “aos brasileiros, que o conhecem melhor do que eu”. Depois, disse que Obama é “uma máscara negra num rosto branco” e assegurou que os americanos “não entendem absolutamente nada de cultura árabe”. Esta, a seu ver, repousa sobre dois pilares: a religião e a poesia. “Não há um único grande poeta árabe que seja religioso”, garantiu, a despeito de que “religião e cultura estão estreitamente ligadas no mundo árabe”: “Nesse contexto, o ser humano só pode crer, obedecer e praticar a religião. Não tem nada a acrescentar. Nem Deus pode acrescentar algo, porque já disse sua última palavra ao seu último profeta. É por isso que precisamos refazer o passado e questionar nossa moral, nossas tradições, nossa religião. Nem sequer é possível haver literatura, porque a literatura é uma visão de mundo e cria novas relações, o que é impossível quando a última palavra já foi dita. A maioria dos problemas do mundo de hoje são de ordem cultural”.

Amin concorda. “O século 21 será o século da cultura ou não será”. E lembra que todas as tiranias desconfiam da ficção. Como de seus próprios romances ou dos belíssimos poemas de Adonis, que acabam de ser traduzidos para o português por Michel Sleiman e publicados pela Companhia das Letras, com prefácio de Milton Hatoum.

share
Logo da Casa Azul