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O inseto, o elefante e o cosmo

Dois seres muito diferentes em personalidade e massa corporal, o inseto e o elefante, são os protagonistas dos dois poemas drummondianos selecionados pelos expositores Alcides Villaça (à direita na foto) e Antonio Secchin, em torno dos quais fizeram girar seus argutos comentários sobre as diferentes faces do poeta mineiro. Drummond – o poeta moderno foi o tema da mesa 5, que teve como mediador Flávio Moura, por dois anos curador da Flip e hoje atuante em projetos ligados ao evento.


Apesar do nome dessa mesa, uma das ideias discutidas ali é a de que Drummond, ao contrário do que às vezes se pensa, não foi modernista até o fim da vida – ou não foi apenas isso. A certa altura, depois de ter experimentado escrever versos com toda a liberdade irreverente apregoada por Oswald de Andrade e sua turma, ele chegou mesmo a interessar-se pela poesia de formas fixas, que muitos consideravam superada, e a exaltar poetas simbolistas e parnasianos do começo do século 20.

 

Também na esfera pública Drummond pode ser entendido como um samba de uma nota só. Embora tenha se aproximado dos comunistas do PCB na década de 1940, a exemplo de vários intelectuais brasileiros, segundo Villaça ele “não tinha vocação para seguir as diretrizes do partido”, e em seus diários chegaria a questionar-se: “Será que eu sou mesmo um animal político?”.


Bem, sim e não. No poema "Elefante", por exemplo, no qual o protagonista “constrói” o animal, parte por parte, como se fosse um veículo, para identificar-se com ele após sair à rua na vã tentativa de fazer amigos, pelo menos duas interpretações são possíveis: uma pessoal (timidez) e outra social (solidariedade). Foi esse um dos aspectos ressaltados por Villaça, bastante aplaudido em suas considerações consistentes, mas com sabor crônica. “O elefante, nesse caso, é só um disfarce para o sujeito”, adverte Villaça. E chama a atenção para o fato de que o último verso do poema sugere a determinação do militante de uma determinada causa, que apesar dos repetidos reveses não mede esforços para seguir em frente: amanhã recomeço. 


No caso de "Áporo", também pertencente ao livro A rosa do povo, de 1945, Secchin identifica certa ressonância política nos catorze versos desse soneto que, à primeira vista, seria apenas um elogio à persistência individual, no fim recompensada com uma orquídea. Acontece que o incansável inseto que “cava sem alarme” poderia ser, supõe-se, uma alusão cifrada ao líder comunista Luís Carlos Prestes, que Drummond nessa época admirava. 


Apesar desse impulso político, nunca chegou a ocorrer de fato um alinhamento de Drummond com determinada ideia, facção ou programa social. “Ele tinha dificuldade em tornar-se uma figura pública”, observou Secchin. “E no fim sempre vencia a força centrípeta” ou seja, intimista, aquela que fazia o poeta voltar-se para o seu próprio centro, mais do que para o mundo à sua volta. E Villaça completou: “A ideologia é talvez a maior inimiga da poesia. No fim das contas, para Drummond só existiam duas instâncias: Minas e o cosmo”.

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