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Laerte/Muriel rouba a cena

A presença dos cartunistas Laerte Coutinho e Arnaldo Angeli Filho na última sessão de debates do sábado lotou a tenda dos autores na Flip. Além da popularidade da dupla, que partilha a página de quadrinhos da Folha de S. Paulo há três décadas, havia uma curiosidade extra na plateia: com que roupa Laerte iria se apresentar – de resto, um enigma diário para ele mesmo, desde que resolveu aderir à prática do crossdressing, que é como vem sendo chamado o fetiche do transvestimento.


A conversa, conduzida pelo jornalista Claudiney Ferreira, começou com um exercício de conceituação do humor, que se tornou penoso na medida em que as perguntas questionavam eventuais conflitos entre liberdade de criação e outros direitos individuais. Vale tudo no humor? – provocou o mediador. Angeli respondeu que “a pessoa tem que responder pela piada, num acerto crítico com quem ouve ou vê, mas não acho a saída judicial a ideal”. Para Laerte, o problema é com os shows de comédia ao vivo, que têm “apelo de baixa qualidade”.


“Aí fica a questão de quem vai colocar um limite”, emendou Laerte. “Precisamos encontrar um jeito de que a crítica seja feita sem ter que chamar a polícia”. Angeli garante que procura ser cuidadoso: “Não solto piada a granel, me preocupo com o que estou falando e com quem estou falando”, afirmou.


Laerte contou que já teve problemas, certa vez, quando desenhou uma historinha na qual um bandoleiro afetado pelo mal de Alzheimer invade uma cidadezinha e esquece quem devia matar. Leitores que tinham familiares com a doença protestaram. “É preciso ter respeito por certas condições, mas evitar a sacralização, que é também uma falta de respeito”, observou.


Angeli também se lembra de um caso em que a história tinha como personagens um casal. A mulher se queixa de que o marido não a toca mais. Ele se levanta e a cobre de pancadas. “Pronto. Te toquei”, diz o personagem. Choveram protestos e uma jornalista, autora de um blog, o criticou publicamente, chamando-o de machista. Para Laerte, outro episódio sensível aconteceu quando ele desenhou uma tira sobre um suicida. A mãe de um jovem que havia se suicidado havia pouco tempo se sentiu ofendida. “Nesse caso, difícil saber o que foi o gatilho que motivou o suicídio”, observou Laerte. Angeli aproveitou para ressaltar o trocadilho com a palavra gatilho e Laerte emendou: “quem sabe foi o próprio amor da mãe”.


O encontro seguiu assim, entre ensaios de análise do humor e inevitáveis idiossincrasias, enveredando por questões como o processo de criação de cada um e o encontro da dupla com Glauco Villas Boas, que foi assassinado em 2010. Angeli gosta muito da prancheta, ou seja, aprecia a elaboração do desenho, as peças grandes e trabalhosas. “Às vezes complico tanto que esqueço por que estava fazendo aquilo”, contou. Laerte diz que gosta muito da prancheta do Angeli, “uma prancheta de casal”, mas prefere a fase de criação da história e tem cada vez menos paciência para o desenho em si. “Perdi o tesão pelo original”, confessa.


Angeli arrancou risadas da plateia ao contar que, às vésperas de completar sessenta anos de idade, está perdendo a memória recente. “Fumei muito orégano na vida”, brincou. “Estou tentando me acostumar e trabalhando essa ideia de envelhecer”, prosseguiu. Questionado se já pensou em parar de desenhar, como fez o argentino Quino, Laerte disse não ter problemas com os desenhos rotineiros, mas eventualmente não dá conta de trabalhos maiores.


Sobre as inevitáveis crises de criatividade de quem precisa produzir humor todo dia, Angeli disse que “o que era fácil antes começa a ser difícil. Antes eu fazia mais rápido e acabei criando um artifício – uso desenhos sem motivo, pegando coisas antigas que estão na gaveta, que chamo de caderno de esboços”, explicou. Laerte diz que não trabalha mais com personagens. Em caso de crise criativa, “posso recorrer a anotações ou a ideias que já produzi no passado. Mas não se trata de nenhuma picaretagem”, ressaltou.


Angeli diz adorar criar personagens, “vê-los crescer e engordar. Mas ao mesmo tempo você pode se tornar refém deles”, ponderou. “Meu projeto nunca foi ser como o Schultz” (Charles Schultz, criador do personagem Charlie Brown). Alguns de seus personagens, criados em fases diversas de sua vida, quando se identificava com tribos urbanas, tiveram que ser sacrificados.


Inevitável, então, não citar a Rê Bordosa. “Morreu assim: construí a história da morte dela e morreu com dignidade”, disse. Laerte observou que “a gente não tem que acreditar em tudo que lê nos quadrinhos”, comentou sobre séries que interrompeu e introduziu na conversa o personagem Hugo/Muriel, homem que em determinado momento passa a se vestir de mulher. Assumindo o personagem como seu alterego, Laerte define o momento em que foi tomado pelo personagem: “Há uma tira de Hugo se depilando e ele diz – Às vezes, um cara tem que se montar, ué!”


Segundo explicou, “essa tira chamou a atenção de grupos transgêneros e me convidaram a participar do movimento. Descobri que uso o trabalho para refletir. Neste trabalho, ainda precisei da ajuda de pessoas que fizeram o papel de um terapeuta”, acrescentou.


A partir desse ponto, afirma, ele se descobriu na nova condição. “Não é algo acabado, é uma condição que me levou a um novo tipo de militância”, disse, lembrando seus tempos de partido comunista. Na sua opinião, a feminilidade é uma imagem criada externamente ao indivíduo. Aventurando-se pelo terreno da antropologia, arriscou-se a dizer que condições como a sua representam “uma transformação que estamos vivendo (como sociedade). Já existe base para superarmos a questão da divisão de gêneros”, disse.


O diálogo ainda passou por outros temas, como o encontro da dupla, no Festival Internacional de Humor de Piracicaba, e como integraram Glauco Villas Boas ao elenco. Mas, uma vez introduzido no debate, Laerte/Muriel se negou a sair. O cartunista usava um vestido estampado, sem mangas, de uma coleção de verão da loja Collins, adaptado ao inverno por uma pashmina azul-turquesa. Esse era, afinal, o centro das atenções desde o início, mas parte da plateia saiu sem saber se Laerte foi realmente tomado por Hugo/Muriel ou se essa é sua piada mais recente.

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