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Exílio e flanerie

O ato de flanar livremente tem sido tema recorrente na literatura mundial há séculos, e já foi definido por Balzac como a “gastronomia do olhar”, ou a degustação dos sentidos proporcionados pela descoberta ou a redescoberta dos lugares. Na mesa 7 da Flip, a escritora brasileira Paloma Vidal, nascida na Argentina, e o escritor americano Teju Cole, nascido na Nigéria, falam da flanerie contemporânea, na qual até mesmo cidadãos cosmopolitas podem experimentar a liberdade e o estranhamento de andar por aí.


Teju Cole, fotógrafo, historiador, professor de Literatura e História da Arte e escritor, veio a Paraty falar de seu último romance, Cidade aberta, na qual se coloca na pele de um psiquiatra nigeriano que vaga por Nova York elaborando considerações sobre o estado de espírito que predominava na cidade pouco depois dos atentados de 11 de setembro de 2001. Suas lucubrações se mesclam a citações históricas e conversas com transeuntes ocasionais, num mosaico cujo desenho ainda remete o leitor à infância do personagem (e do autor) na África.


Paloma Vidal, escritora, tradutora e também professora de Teoria Literária radicada no Rio de Janeiro, vive no Brasil desde os dois anos e meio de idade. “A caminho dos 40”, observa, ainda se sente dividida em duas nacionalidades. Seu romance Algum lugar, publicado em 2010, retrata a solidão de um casal que se vê obrigado a mudar do Rio para Los Angeles, cidades que são em tudo antíteses uma da outra. O fato de a própria autora sentir o deslocamento de lugar em sua própria vida transforma a obra em uma busca incessante de identidade na qual se mesclam memórias pessoais, sonho e invenção.


O mediador da mesa, o economista que virou escritor J. P. Cuenca, foi moderador apropriado para a interlocução entre os dois convidados – ele mesmo sendo autor, entre outros livros, de uma coletânea de crônicas que tem a cidade do Rio de Janeiro como personagem. Talvez por isso tenha iniciado o diálogo pontuando a busca da identificação das migrações naturais como referência para o ser humano em movimento. Tanto Paloma Vidal como Teju Cole parecem escrever como quem perambula por aí, deixando no leitor a sensação de que a obra é também fruto de casualidades. No livro de Cole, esse elemento é localizado no voo das aves migratórias, que têm sempre um plano, mas podem também sofrer intercorrências, como na cena final: “Quando descobri que o antigo farol que havia na estátua da Liberdade desorientava os pássaros, e muitos deles se chocavam com a estátua e morriam, senti que tinha feito um gol na final da Copa do Mundo”, afirmou.


O livro de Paloma foi elaborado a partir do blog que produzia quando viveu em Los Angeles. A estrutura da obra surgiu naturalmente, explicou, quando juntava os fragmentos de uma narrativa muito pessoal, o que pode confundir o leitor na interpretação dos sentimentos dos personagens. Para ela, “a questão da identidade e nacionalidade é uma espécie de recalque – sempre volta na defesa de certo espaço próprio, no sentido de enfatizar a diferença em relação ao outro”.


Para Cole, também a experiência da vida em Nova York teve um sabor amargo durante a produção do livro. “Quando terminei Cidade aberta, fiquei com raiva e triste, porque entendi que não era uma carta de amor à cidade. Nova York é uma engrenagem que prende muita gente, uma cidade que te destrói e te esquece. Mas depois me senti mais nova-iorquino que nunca, e agora acho que o livro é uma carta de amor a Nova York, porque escrever uma carta de amor é como descrever intimamente o objeto amado”, afirmou.

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