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Em família

A família foi o tema que reuniu a escritora portuguesa Dulce Maria Cardoso e os brasileiros João Anzanello Carrascoza e Zuenir Ventura na mesa 12, sábado. Para o crítico literário e professor de Literatura João Cezar de Castro Rocha, mediador do encontro, talvez uma oportunidade para conferir algumas afirmações célebres, como a de Tolstói segundo a qual “todas as famílias felizes são iguais”, ou a frase de Nelson Rodrigues, para quem “todas as famílias, felizes ou infelizes, são inevitavelmente neuróticas”.


Dulce Cardoso considerou curioso que tenha sido convidada pela primeira vez a analisar seu romance mais recente, O retorno, sob o olhar das relações familiares justamente no Brasil, uma vez que foi onde sua mãe viveu, durante pouco tempo, aos onze anos, enviada pelos pais para estudar em São Paulo. A lembrança da experiência relatada pela mãe se apresenta, segundo ela, no contexto em que “a família é uma relação na qual o presente fica ligado ao passado, mas um presente que adivinha o futuro”.


“A família é também um laboratório do comportamento humano, o lugar onde todos os dramas podem ser experimentados”, acrescentou, lembrando que os piores conflitos se desenrolam no interior desses núcleos, sem que sejam necessariamente levados para fora. “Há certa impunidade no interior das famílias”, comentou, afirmando que seus personagens não existem sem esse sistema familiar complexo, onde se tenta equilibrar as diferenças de poderes e dependência.


O retorno, publicado em 2011, obteve imediata repercussão também por tratar do drama das famílias dos retornados, cidadãos portugueses que foram obrigados a voltar das antigas colônias por causa das guerras de independência na África. Muitas dessas famílias, que perderam tudo nesse processo, foram alojadas em hotéis cinco estrelas, o que criou uma situação bizarra de absoluta carência em ambientes de luxo que durou quase três anos. Dulce Maria Cardoso introduziu também no diálogo a questão do amor presente nas famílias, considerando que “o amor é o mais benigno dos jogos de poder e também a mais tirânica das dependências”. Em sua opinião, a ausência do amor estabelece relações tão ou mais fortes do que as que o amor impõe.


João Carrascoza, conhecido por seus contos sobre o cotidiano, lançava na Flip a coletânea intitulada Aquela água toda, o mais recente de seus mais de vinte livros. Para ele, o que interessa na rotina das pessoas “são os não ditos, os pressupostos e o silêncio”. A família é também o espaço de tatear a alteridade, de aprender a conhecer e entender o outro. “Minha literatura é uma literatura da vida menor, do miúdo, do cotidiano”, observou, dizendo que se interessa em encontrar uma maneira de contar as coisas mínimas.


“Tematizando o cotidiano, acabo não fazendo uma literatura de grandes efeitos, mas sempre há elementos elegíacos e de compaixão pela presença clara da finitude”, disse, acrescentando que também na vida comum das pessoas “há uma flor feia de poema, que no entanto é flor, como a flor do cacto”.


Zuenir Ventura, que no romance Sagrada família faz um retrato impiedoso das relações sociais no Brasil dos anos 1940, observa a família específica desse tempo como um espaço do poder patriarcal absoluto, que no entanto se diluía “nas muitas zonas de sombra e dos armários trancados”. Nesse ambiente de dissimulações, afirmou, os preconceitos, tabus e estigmas definiam o comportamento das famílias.


Sob o ângulo das relações familiares, seu romance dialoga com o olhar de Nelson Rodrigues, principalmente no aspecto das situações inverossímeis, ainda que eventualmente reais, a que o personagem-narrador é exposto. São casos em que a hipocrisia oculta no cenário da família autoritária, onde a mulher era submissa ao marido, eventualmente vaza para o conhecimento público. No final, ele fez rir a plateia ao ler um trecho do romance, que afirma ser verdadeiro, no qual uma das personagens dissimuladas faz sexo com o farmacêutico da cidade. Uma cena típica das velhas chanchadas do cinema nacional.

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