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Comunidades e forasteiros

Há uma semelhança inegável entre as favelas da longínqua Bombaim e as do Rio de Janeiro, que Suketu Mehta, professor de jornalismo na Universidade de Nova York, visitou em dezembro: os habitantes desses lugares marginalizados, lá como cá, referem-se a seus espaços urbanos como “comunidades”, não como favelas – são aldeias dentro da urbes. Mehta, que nasceu em Calcutá e foi criado em Bombaim até os catorze anos, quando a família mudou para Nova York, sabe bem do que está falando.

Como boa parte da população urbana do planeta, ele também é “um forasteiro”, o que constatou quando tentou voltar “para casa” e descobriu que a Bombaim de sua infância já não existe (“a garagem do prédio onde eu morava é hoje residência dos empregados dos apartamentos”, por exemplo). “Posso ter um estúdio em Paris e outro em Londres, viver em Nova York e manter um apartamento em Bombaim, e serei sempre um forasteiro, em todos esses lugares”, disse ele. “Há habitantes de São Paulo que sabem onde comer os melhores doces em Paris, mas não têm ideia de onde comer o melhor pastel de sua cidade. A Índia inteira é uma coleção de forasteiros tentando ser aceitos”. 

Somos todos forasteiros tentando ser aceitos em diversas aldeias pelo mundo todo – este parece ter sido o mote da mesa desta manhã, “Cidade e democracia”, moderada por Guilherme Wisnik e com a participação do antropólogo brasileiro Roberto DaMatta. Mehta começou por ler dois trechos fortíssimos de seu Bombaim: cidade máxima, que a Companhia das Letras lançou nesta Flip. Num deles, pergunta a um hindu como é um homem em chamas e o entrevistado descreve em detalhes horripilantes o que vira num conflito étnico-religioso em Bombaim, para em seguida informar que ele mesmo queimara vivo um muçulmano, seu conhecido. No outro trecho, entrevista um passageiro habitual dos trens suburbanos superlotados de sua cidade natal, onde circulam seis milhões de pessoas por dia; para sua surpresa, o homem enxergou esperança e humanidade nas mãos estendidas para ajudar o embarque de retardatários – hindus, muçulmanos, cristãos – e nos centímetros de espaço inventado para abrigá-los onde já não há espaço algum.

Esses habitantes de favelas ou subúrbios miseráveis vivem em espaços ainda humanizados que tentamos enquadrar, aqui como lá, em conjuntos habitacionais “projetados por algum arquiteto insano”, ponderou Mehta. “São blocos cinzentos e simétricos a substituir o colorido personalizado das várias casas da favela”, lamentou, lembrando que imagens do cérebro humano mostram formas e cores mais parecidas com as da favela do que com as dos conjuntos habitacionais. Ele observou um fenômeno semelhante ao visitar favelas no Rio: “Na favela não pacificada, vi homens armados com AK-47, cocaína vendida em enormes sacos de lixo no meio da rua e assisti a um animado baile funk. Já na favela pacificada, ouvi um jazz castrado e vi uma multidão de turistas da Zona Sul”.

Por sua vez, DaMatta observou que “já não existe um cânone da modernidade, uma fórmula, como havia na minha geração, nos anos 1960”. Entusiasmado pela temática do livro de Mehta, que acaba de ler, o brasileiro estendeu-se em reflexões sobre as megalópoles brasileiras e a questão da desigualdade. “Nosso problema não é a desigualdade”, afirmou. “Nosso problema é nossa alergia, óbvia, patente, à igualdade. As situações em que somos forçados a alguma igualdade são aquelas a que reagimos com maior fúria.” 

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