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Como povoar mundos ficcionais

A relação do escritor com seus personagens foi um dos assuntos de destaque na mesa 11 -- "Pelos Olhos do Outros" --, mediada por Arthur Dapieve, que reuniu no palco da Flip dois autores de língua inglesa, mas de países diferentes.


E nesse ponto o inglês de 64 anos, e americana de cinquenta, apresentam entre si contrastes e similaridades. Estas, aliás, podem não ser de todo casuais. Jennifer o tem como referência literária desde muito jovem, quando era universitária em Los Angeles e deliciou-se com o humor de um conto que ele leu durante uma palestra na faculdade. 


Uma das semelhanças entre eles são as experiências de imersão na vida real, com o objetivo de captar os detalhes necessários para a composição dos personagens. McEwan recordou do período de dois anos em que acompanhava, lado a lado, o trabalho de um neurocirurgião, dentro da própria sala de operação. Ficou tão entendido em aneurismas, que certa vez chegou até a dar explicações convincentes a alguns estudantes sobre esse assunto. 


Jennifer passou oito horas dentro de uma prisão masculina, onde conheceu um detento que criava répteis para serem usados em trabalhos de animação. Em outra ocasião, fez contato com integrantes de uma rede virtual de pedófilos gays na qual, como veio a descobrir depois, um homem adulto assediava um rapaz ocultando-se por trás das figuras fictícias de sete meninos, manipulando seus personagens como se fosse um romancista.


Os dois autores divergem, no entanto, no grau de apego que desenvolvem em relação aos personagens que criam. Mesmo após terminar um livro, Jennifer se inclina a revisitá-los em outra fase da vida, nos projetos que se seguem. McEwan, ao contrário, diz que para voltar a escrever tem necessidade de “limpar o palco” – e isto explicaria por que costuma “matar” tantos personagens ao final das suas histórias.


Sobre o método que usam para criá-los, McEwan compara o seu procedimento com o de um desenhista, que vai delineando uma figura humana traço a traço, cada um deles determinando o que virá a seguir. Até que, determinado momento, ele “enxerga” o personagem. Jennifer é menos construtivista, mais sensorial: “Começo com uma atmosfera, uma sensação de tempo e lugar. Os personagens nascem dali”.


No início da sessão, Jennifer leu um trecho do seu romance O torreão, que está saindo agora no Brasil embora tenha sido escrito antes A visita cruel do tempo, já lançado aqui no ano passado, quando venceu o prêmio Pulitzer, nos Estados Unidos, e tornou-se best-seller. McEwan, também muito premiado, fez sucesso mundial em 2001 com o romance Reparação e, nos anos seguintes, consolidou seu prestígio com Sábado (2005) e Solar (2010). Sobre as histórias de espionagem, ele dá a esse gênero uma abrangência maior do que a um simples segmento da literatura, considerando o próprio ato da leitura como uma espécie de investigação, por parte do leitor. “Talvez todos os romances sejam de espionagem”, conjectura McEwan. “No sentido de que o romancista detém a informação e vai revelando aos poucos”. A estratégia encontra eco nas palavras de sua pupila americana: “O principal prazer da minha vida é manipular a expectativa do leitor”.

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