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Bibliotecas, bibliotecas...

A mesa Zé Kleber é o momento da Flip em que a população de Paraty invade a Tenda dos Autores: É nesse momento que se discutem questões de políticas públicas no espaço urbano, envolvendo temas como arquitetura, urbanismo e cidadania – ou, desta vez, a função social da leitura em espaço público. Alexandre Pimentel (à esquerda na foto), diretor da Biblioteca Parque de Manguinhos, no Rio de Janeiro, não poderia encontrar melhor interlocutor para a conversa do que a bibliotecária e educadora Silvia Castrillón, uma das responsáveis pelo que ele chama de “matriz colombiana” do bom modelo de implantação de bibliotecas públicas.


“Uma biblioteca pública não é nem pode ser apenas um espaço para ler, pesquisar e emprestar livros”, explicou. O conceito de biblioteca-parque, resultado de uma política pública abrangente da Secretaria de Estado da Cultura – e não da Educação, como destacou Pimentel – visa a criar “espaços de convivência democrática”. Em Manguinhos, uma das áreas mais pobres e mais violentas do Rio de Janeiro, a biblioteca pública é praticamente de vidro e, em seus dois anos de vida, nunca teve problemas de depredação, roubo ou furto; e o índice de não devolução de livros emprestados é menor do que o da Biblioteca Nacional. Milagre? Não. Basta despir-se de preconceitos e permitir que os usuários se apropriem da biblioteca. “Quando um jovem usuário me pergunta se sou o ‘dono’ da biblioteca, sempre respondo que sou apenas o diretor, mas que, naquele momento, estou falando com o dono”, explicou Pimentel.


As bibliotecas-parque do Estado do Rio, localizadas justamente nos espaços urbanos onde não há nenhum outro equipamento disponível para a população, são simplesmente boas bibliotecas: “Não são bibliotecas ‘para favelas’ ou ‘de favelas’, em que se colocam livros de Sebastião Salgado porque ele trata da questão social”. Em Manguinhos, por exemplo, um dos livros mais retirados é um de Oscar Niemeyer, porque as pessoas têm essa referência cultural. “Nosso trabalho é criar outras referências, novas referências e, para isso, vale tudo: teatro, oficinas de arte, de editoração de revistas, de blogs, livros digitais...”, disse Pimentel, observando que “o importante é o processo, não o produto final dessas iniciativas”, cujos participantes têm idades variando de 16 a 80 anos. “Certa vez dramatizamos um texto de Shakespeare e, de repente, muita gente estava lendo Shakespeare. É o processo de formação cultural continuada, de ampliação do acesso à cultura, que vai formar o leitor”. A maior alegria de Pimentel, depois de dois anos dessa primeira biblioteca-parque, é esta: “A biblioteca abre às 10 horas e às 9h30 já tem fila na porta”.


Todas essas ideias sobre a biblioteca pública ideal, apropriada por leitores e formadora de leitores, ou quase todas essas ideias, vieram diretamente do modelo colombiano. “O que faz uma biblioteca não é o edifício, nem os livros, mas sua capacidade de convocar todos os cidadãos de seu entorno a descobrir esse bem público que é a palavra escrita”, ponderou a educadora Silvia Castrillón, uma das articuladoras do sistema colombiano de bibliotecas públicas. “A leitura, a escrita e o livro são direitos fundamentais da existência humana”, disse. E acrescentou: “O capitalismo só valoriza leituras técnicas e científicas ou o livro como bem de consumo, que gera a leitura recreativa, de evasão. Com isso, deslegitimiza as duas instituições que devem garantir o acesso democrático à leitura – a escola e a biblioteca – e reduz a capacidade das pessoas para pensar, criticar e imaginar”.


Depois de sua palestra, o público aplaudiu com entusiasmo o músico paratiense Luiz Perequê, que pediu a palavra para cobrar uma participação mais direta da população no processo de implantação da Biblioteca Parque de Paraty, um projeto que já está em fase de desenvolvimento.

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