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Autoritarismo, presente e passado

A mesa 4, que no começo da noite de quinta-feira se anunciava como um debate entre o deputado e jornalista Fernando Gabeira (no centro da foto) e o cientista social e antropólogo Luiz Eduardo Soares (à esquerda na foto) sobre a relação entre autoritarismo e literatura, acabou derivando para uma atualização das mazelas políticas do Brasil contemporâneo e suas raízes históricas. A mediação foi do experiente jornalista Zuenir Ventura, autor do recentemente publicado romance Sagrada família, com lançamento oficial previsto para este sábado na Flip. As questões iniciais propostas por Ventura produziram duas abordagens distintas à questão em debate, mas o tema do autoritarismo nas relações do Estado com a sociedade acabou encobrindo o outro aspecto, o das relações autoritárias na própria sociedade brasileira.


Gabeira, que deixou o jornalismo para ingressar na luta armada contra a ditadura, já foi, na sequência, exilado político, ícone da contracultura, militante ambientalista e defensor de bandeiras liberalizantes como o casamento entre homossexuais e a descriminalização da maconha. Por conta dessa trajetória, fez carreira como parlamentar e hoje se destaca entre as lideranças do controverso Partido Verde. Para ele, o Brasil ainda convive com o autoritarismo institucional de dupla origem: a do Estado Novo, sob Getúlio Vargas, e o da ditadura militar inaugurada em 1964. Nos dois casos, foram construídas relações de dominação do Estado sobre a sociedade cujas consequências ainda são vividas no sistema político, por meio do patrimonialismo e do divórcio entre a representação política e a sociedade.


Luiz Eduardo Soares, declarando-se otimista com relação às possibilidades de afirmação da democracia no Brasil, entende que, para que ela se consolide, é preciso que o desenvolvimento econômico recente seja sustentável e produza a redução das desigualdades sociais. Para ele, é inadmissível a permanência de “situações enigmáticas como as torturas e execuções extra-judiciais, principalmente de negros e pobres”, em plena vigência da democracia. “Violência e barbárie passaram a fazer parte da paisagem”, observou.


Para Gabeira, é difícil definir o autoritarismo no Brasil porque não se pode distinguir heróis de vilões. Ele citou alguns casos de mobilizações populares contra medidas que deveriam beneficiar o povo, como no caso da Revolta da Vacina, no início do século passado, que, segundo ele, resultaram de manipulação vertical das vontades por conta de uma relação social autoritária. Soares concordou com a ideia de que o autoritarismo se manifesta também nessas circunstâncias, mas acrescentou que, com a falta de um rito de passagem entre a ditadura e a redemocratização, alguns temas foram sepultados, como a defesa dos direitos humanos.


Soares defendeu a ação autônoma da Comissão da Verdade, recentemente oficializada com a missão de revelar os crimes da ditadura militar como um oportunidade para expor à sociedade a necessidade de assegurar a defesa dos direitos humanos. Também se referiu à promiscuidade entre público e privado e sua relação com o autoritarismo, lembrando como o líder comunista Luis Carlos Prestes apoiou Getúlio Vargas e liderou o movimento “queremista” por sua volta ao poder, depois de ter passado dez anos numa solitária a mando de Vargas, que também havia mandado sua mulher, Olga Benário, para ser morta pelo governo nazista da Alemanha. No seu entender, a submissão dos sentimentos pessoais em favor de um projeto político também é parte dessa herança problemática.


Gabeira enveredou, em seguida, para uma análise crítica do sistema partidário, apontando a alienação dos políticos em relação à sociedade como uma forma de autoritarismo. Omitindo sua condição de fundador de um partido que se divide em alianças controversas segundo interesses locais, acabou provocando um questionamento da plateia sobre a imposição – autoritária?, suscitou um espectador –, de um discurso de viés único no debate. Luiz Eduardo Soares, autor de livros como Elite da tropa e Elite da tropa 2, além do recente Tudo ou nada, foi poupado de perguntas sobre o uso de sua obra em filmes que fazem apologia à violência policial.

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