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Apenas literatura

Há entre o catalão Enrique Vila-Matas (à esquerda na foto) e o chileno Alejandro Zambra um abismo de gerações onde caberia uma alta densidade de escritores hispânicos, mas, ao ouvi-los na conversa da mesa 2, na quinta-feira, os presentes às tendas da Flip tiveram a impressão de que estavam entrando num diálogo começado há muitos anos. Vila-Matas, nascido em 1948, publicou seu primeiro livro em 1973, dois anos antes do nascimento de Zambra. No entanto, os dois são apontados como referências de um olhar apaixonado para a literatura que anda ausente do cenário.


Com uma obra composta por “mais de trinta livros” – cuja conta exata nem ele sabe fazer –, Vila-Matas pretende “buscar a originalidade através das obras dos outros”, como uma homenagem à própria literatura. Ele constata que “muitas vezes inventamos situações de angústia ou satisfação que pensávamos ser apenas nossas, e descobrimos que são também de outros”, observou, completando a ironia: “Na Espanha, há escritores que pensam que são os primeiros a escrever – e aqui também. Como se não houvesse memória cultural”.


Seu novo livro, Ar de Dylan, é uma referência explícita ao cantor e compositor Bob Dylan, que ele apresenta como “uma máscara contemporânea, um personagem que é ao mesmo tempo uma pessoa real”. Essa ambiguidade é uma marca de sua obra, feita de referências explícitas (e outras que podem ser adivinhadas) a outros autores. A narrativa começa com um episódio real: ele contou a amigos que havia sido convidado a participar de um congresso sobre o fracasso e teve que lidar com manifestações de pesar. “Mas acontece que nunca fui a esse congresso”, afirmou, arrancando risos da plateia.


No improvável encontro de duas gerações e dois continentes distantes, não se apresentou o esperado oceano de diferenças. Pelo contrário: o outro convidado à mesa 2, Alejandro Zambra, percorre caminho semelhante em seu romance Bonsai, no qual, esclarece, a trama é o que menos importa. “Falo de Júlio e Emilia, que se apaixonam, no final Emilia morre, Julio não morre – o resto é literatura”, comentou. Ele pretendeu escrever um romance que fosse como um bonsai de romance, sobre jovens que sonham viver de literatura, estudam literatura e esperam ser salvos por ela, e acaba produzindo uma obra densa que, ao pretender falar de nada, acaba levando o leitor para viagens intensas pela própria literatura.


Como Enrique Vila-Matas, Zambra se vale de outros autores, que através dos personagens de Bonsai, enriquecem a narrativa enquanto Julio e Emilia leem um para o outro e mentem sobre autores que nunca haviam lido. Como ponderou o jornalista Paulo Roberto Pires, editor da Serrote, revista do Instituto Moreira Salles, mediador do encontro: os dois fazem uma literatura sem rótulos, apenas literatura, que aproxima dois improváveis interlocutores e expõe a dificuldade dos críticos de lidar com referências que saem de etiquetas como “pós-moderno”, “metaliteratura” e outros que, no fim das contas, não querem dizer nada.

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