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Alteregos, tablets e o objeto-livro

A velhinha de Taubaté, a paixão pelo Internacional de Porto Alegre, a carreira de jornalista e escritor – tímido, discreto, contido, Luiz Fernando Verissimo foi bombardeado com perguntas na Ciranda dos Autores desta manhã, quando compartilhou o palco da Tenda da Flipinha com o moderador Volnei Canônica e com Angela-Lago, a mineira que está lançando seu Menino Drummond nesta Flip, livro de poemas de Drummond selecionados e ilustrados por ela. Apesar do título da Ciranda ser “Paixão, poesia e imagens”, Verissimo tratou logo de esclarecer que não é poeta: “Poesia é imagem feita de palavras e eu não sei como fazer isso”.


Já Angela-Lago sabe fazer poesia com imagens e muitas vezes sem palavras, como no livro Cena de rua, que define como uma reportagem visual sobre um menino que vende coisas no semáforo. O livro foi premiado por toda parte, inclusive em Nova York e em Paris. Foi ela também que fez o primeiro site para crianças do Brasil e agora faz também jogos interativos. “Estou começando a aprender tablets e, em breve, vou lançar um aplicativo para tablets”, anunciou. Angela adora computadores e usa desde os anos 1980, quando surgiram os primeiros PCs. “O computador é um pincel novo e cada um pode criar o seu próprio pincel”, disse ela, que é constantemente pressionada para voltar a usar papel e tinta. “Mas o computador me fascina mais.” Angela também acha que o humor – como o de Veríssimo – é uma forma de poesia, porque também desconecta a racionalidade e conecta a sensibilidade.


Quanto às paixões de Veríssimo, que escreveu muitos livros, para adultos e crianças, mas não está lançando nenhum nesta Flip, ele só lembrou do Internacional mesmo. E da neta Lucila, cujo aniversário de um ano, dia 4 de abril, coincidiu com o centenário do time gaúcho. “Ela nasceu colorada, para sua sorte, senão seria expulsa da família”, avisou. Veríssimo torce pelo Inter desde os nove anos de idade, quando voltou de uma temporada de dois anos nos Estados Unidos, onde o pai dava aulas de Literatura Brasileira na Universidade da Califórnia. Foram os dois últimos anos da Segunda Guerra Mundial. “Eu matava tantos alemães e japoneses na minha imaginação, que acabaram me levando ao médico”, lembrou. “Fui um neurótico de guerra precoce.”


Quando voltou ao Brasil, torcer pelo Inter – o time do povão, enquanto o Grêmio era o time da elite, que “tinha acabado de perder a guerra” – foi a maneira que encontrou de se reintegrar ao país. Além de jogar “futebol de calçada”, claro. Muito antes disso, quando ainda não sabia nem ler, adorava um livro infantil do pai, Aventuras do avião vermelho. “A primeira relação da criança com o livro é sempre com o objeto-livro”, explicou. Ser filho de Érico Verissimo ajudou na escolha da profissão de jornalista e escritor? Não, disse ele. O que ajudou mesmo foi nascer numa casa que tinha muitos livros. Livro preferido de Érico Veríssimo, o pai? O continente, primeiro volume de O tempo e o vento. Livro próprio de que gosta mais? O analista de Bagé. Esse personagem seria seu alterego, como Emília é o alterego de Monteiro Lobato: “É um sujeito rude, mas ao mesmo tempo muito sincero. Ele quer curar seus pacientes de qualquer maneira, nem que seja atirando-os contra a parede”.

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