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A realidade sob o farol da imaginação

Esta foi uma das mesas que reuniu os autores mais loquazes e entrosados entre si que já pisaram no palco da Flip, em dez anos. O mediador até poderia ter cochilado, e tudo seguiria às mil maravilhas. Mas o jornalista e crítico literário Ángel Gurría-Quintana, veterano na festa de Paraty, não cochilou. Nem ele nem qualquer dos atentos e deliciados espectadores que acompanharam as elucubrações do colombiano Juan Gabriel Vásquez (de camisa preta) e do espanhol Javier Cercas sobre como a ficção e a história podem se combinar na elaboração de textos literários.


“Parece incrível que esse livro não tenha sido escrito antes”, comentou Vásquez sobre sua própria obra História secreta de Costaguana, que veio autografar nesta edição da Flip. O motivo de sua estranheza, explicou, é que o enredo engloba um dos tópicos mais relevantes da história da América Latina, a independência do Panamá, que até 1903 era uma província colombiana, e a conturbada criação da chamada zona do canal. “Esse buraco não podia continuar, e escrevi o livro para preenchê-lo.” O lugar citado no título, Costaguana, retoma a denominação do país fictício imaginado por Joseph Conrad, escritor britânico, de origem polonesa, que já havia explorado o mesmo tema.


Nascido em Bogotá e radicado em Barcelona, Espanha, há cerca de dez anos, Vásquez para escrever o seu livro teve de enfrentar o “fantasma” de seu famoso conterrâneo Gabriel García Márquez, vencedor do prêmio Nobel de Literatura, em 1982, por uma obra em grande parte ambientada na mesma região caribenha. Mas, para ele, garante, isso não chegou a representar um problema. Mesmo considerando Cem anos de solidão, de Márquez, uma das duas ou três melhores narrativas em língua espanhola em todos os tempos, Vásquez acredita que um escritor jovem, como é o seu caso, não deve se sentir inibido diante dos grandes se quiser almejar um lugar dentro da literatura. 


O espanhol Cercas insistiu que seu último livro, intitulado Anatomia de um instante, deve ser qualificado como um romance muito embora o texto, segundo ele, nada tenha de ficção. Para explicar melhor a sua opinião, recorreu ao filósofo grego Aristóteles, que distinguia dois tipos de verdade: uma factual, própria dos registros históricos, e outra mais abstrata, moral e universal, que diz respeito ao campo literário. “Embora isso seja pouco comum, busquei essas duas verdades ao mesmo tempo quando escrevi Anatomia de um instante, explicou Cercas, cujo livro resgata o episódio traumático e burlesco ocorrido no dia 23 de fevereiro de 1981, quando o Exército ocupou o Congresso e manteve o destino democrático do país em suspenso por algumas horas.


Na opinião de Cercas, o político e o escritor representam dois tipos exatamente opostos. O primeiro, afirmou, está interessado em resolver os problemas o mais rápido possível. “Já o escritor, se não encontra um problema, se encarrega de criá-lo”. E isso, aliás, também ajuda a tornar o ato criativo algo misterioso para o próprio autor. “Só depois de escrever o livro”, explicou Cercas, “é que você descobre a verdade que ele contém e por que você o escreveu”.

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