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A “Clip” como celebração da literatura

A decoração frontal da Tenda dos Autores, com dezenas de pranchas de madeira que brotam do fundo do palco como um cardume em dispersão, sobre um discreto fundo verde-oliva, contrasta com as cores múltiplas e vibrantes ali usadas no ano passado. E assim foi também, mais para sóbria e compenetrada, a atmosfera geral da noite de abertura.


Após a fala do curador do evento, Miguel Conde, a primeira parte da noitada iniciou-se com um breve discurso lido por um sempre tímido, mas bem-humorado Luis Fernando Veríssimo, que ao final lhe renderia calorosos aplausos. Em um tom leve, muito próximo ao de suas crônicas de jornal, o escritor gaúcho – um veterano da Flip – fez referência a um equívoco (uma “gafe”, como ele próprio denominou) cometida há quatro anos, naquele mesmo palco. Foi quando Veríssimo, trocando a primeira letra, chamou a Flip de “Clip”. 


Agora, como para redimir-se do engano, ele redigiu e recitou uma brincadeira, toda baseada na letra C, na qual exaltava os predicados da festa literária em uma longa lista de palavras que iam desde celebração até conspiração (cultural, evidentemente) e comilança.“Aqui se celebra a permanência do livro”, sentenciou o cronista, um reconhecido aficionado da Flip. O próprio Miguel Conde, aliás, ao precedê-lo no microfone, havia informado ao distinto público, em tom de brincadeira, que Veríssimo se dispusera a voltar ao evento de Paraty “mesmo que fosse só para trocar uma lâmpada”.


Na segunda parte da sessão de abertura, dois outros escritores, Silviano Santiago e Antonio Cícero, também filósofo e letrista, leram textos bem mais longos do que o de Veríssimo. Com duas diferentes estratégias, ambos buscaram aproximações analíticas à vida e à obra do poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade, homenageado da Flip de 2012.


Em tom mais acadêmico, Santiago buscou uma visão panorâmica sobre a trajetória de Drummond, que qualificou como “o tardio Proust mineiro”. Ao longo de sua análise -- em que não faltaram citações em francês e referências a autores como Mallarmé e Camus – ele usou como marcos cronológicos os principais acontecimentos do século 20. A partir deles, explicou tanto as mudanças de vida quanto de interesse literário experimentadas pelo poeta. Foi o caso, por exemplo, da Segunda Guerra Mundial, durante a qual, segundo Santiago, Drummond teria derivado para uma posição política mais à esquerda, chegando mesmo a filiar-se ao Partido Comunista. Enfatizou também o fato de que Drummond, seja na mocidade em Minas, seja na maturidade no Rio, sempre esteve conectado com as correntes de pensamento que fluíam no mundo.


Antonio Cícero, de sua parte, preferiu fixar-se em único poema de Drummond, “A Flor e a Náusea”, do livro A Rosa do Povo, de 1945. Chamou a atenção para o fato de que o poeta, já no título da composição, evocava diretamente o romance A náusea, de Jean-Paul Sartre, publicado alguns anos antes, em 1938, e que traduzia a essência do movimento existencialista. Ao longo de sua fala, Cícero deteve-se em cada uma das nove estrofes desse poema, na tentativa de investigar alguns versos de significado menos evidente para o público em geral. Ao final, recitou um poema curto de Drummond, “Canto Esponjoso”. Os versos agradaram a plateia. E foram um fechamento um pouco mais caloroso para a primeira noite, cautelosa e drummondiana, na Tenda dos Autores.

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